Mascote do veraneio

Conheça Morena, a ovelha negra da beira-mar de Tramandaí

Desde novembro, o animal de cerca de um ano e meio chama a atenção de quem circula pelas proximidades da plataforma

Por: Bruna Vargas - de Tramandaí
08/02/2017 - 17h33min | Atualizada em 08/02/2017 - 17h42min

Levando uma vida sossegada à sombra de uma casa com jeito de estância a poucos metros do mar, uma fêmea pouco convencional atrai, desde novembro passado, a atenção de quem circula pelas proximidades da plataforma de Tramandaí, no Litoral Norte. Ovelha de pelagem escura com cerca de um ano e meio e idade, Morena virou mascote do veraneio naquele trecho da praia.

— As crianças são as que ficam mais encantadas com ela. Acho bacana ajudar a aproximar as pessoas da natureza. Fico impressionado com a quantidade de gente que nunca tinha visto uma ovelha antes — conta Delson Silva, dono do animal.

A história de Morena e Delson é tão recente e inesperada quanto o assédio que faz da ovina protagonista de fotos e vídeos de curiosos diariamente. Apaixonado por cavalos, ele pensava em comprar um tordilho (de pelagem acinzentada) para a namorada quando, em 20 de setembro, os dois romperam o relacionamento de cinco anos. Com o negócio já encaminhado, voltou à fazenda onde tinha visto o animal, em novembro, disposto a levar a compra a cabo. Mas mudou de ideia ao colocar os olhos na solitária ovelha da propriedade, também localizada em Tramandaí.

— Sempre gostei de ovelha. E essa é a preferida de quem anda a cavalo, porque é da lã dela que são feitos os pelegos — diz, enternecido.

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Diante do arrebatamento com a ovelha negra, o cavalo cinzento caiu saiu do páreo — embora sua aquisição não tenha sido descartada. Morena foi buscada no dia seguinte e transportada para a casa de praia, onde a família veraneia há 42 anos. No local, ela refestela-se no gramado aparado pelos próprios dentes durante o dia, come ração de milho e soja e diverte-se mastigando cactos e cascas de coco — demonstra interesse pelos mais diferentes tipos de coisas, desde uma pulseira à caipirinha do dono. Dorme na caixa de transporte na qual viajou e na qual será transportada para uma fazenda em Porto Alegre, em março.

Apesar do amor indisfarçado pelos animais do campo, Delson é um filho da urbanização. Morador da zona norte da Capital, onde nasceu há 63 anos, preserva o jeito descontraído — veste-se com bermuda e camiseta estilo surfista, além de preferir ser chamado pelo apelido, Deco — e o sotaque cantado enquanto fala de seus hobbies rurais.

Já a mascote de cerca de 70 quilos e mais ou menos um metro de altura não dá sinais da rebeldia que fez a fama das ovelhas negras na voz de Rita Lee. Seus atos mais ousados foram promovidos pelo próprio dono: duas idas à praia — animais na orla são proibidos pela legislação municipal.

Morena movimentou-se com elegância em um passeio além dos limites do pátio de casa na última terça-feira, a pedido de ZH. Levou poucos minutos para que uma roda com meia dúzia de adultos e crianças se formasse ao redor. Os objetivos eram os mais diversos: uns pediam para tocar, outros apenas fotografar. Todos queriam contemplar um pouco mais de perto, e a maioria concordava nos elogios: "linda" era o mais recorrente.

Boa praça, o dono de Morena — que também é proprietário de um quiosque onde vende lanches e bebidas, no pátio de sua casa — se envaidece com a popularidade do animal. E não cansa de estimular a aproximação com os curiosos e fazer piadas com a rotina da ovelha, desconhecida por muitos.

— Ela gosta de mascar chiclete, mas só se for Trident. Não pode ser outro — brincou, com uma dupla de garotos que fitava Morena parada na areia.

Mas nem só de afagos e loas foram os últimos meses. Delson lembra que, nas primeiras semanas da mascote na praia, a reação de alguns vizinhos de décadas não foi das mais receptivas. Enquanto uns o criticavam por querer "aparecer", outros apostavam que o animal seria abatido para a ceia de Ano-Novo.

Para reagir às provocações, Délson pensou em pegar um pelego da mesma pelagem de Morena e pendurar em frente à casa no Réveillon. Acabou desistindo, receoso de que também levassem a mal a brincadeira que, segundo ele, não tem a menor chance de virar realidade:

— Adoro carne de carneiro. Acho uma delícia. Mas, se depender de mim, não vai partir um churrasco dela.

Animal não oferece risco, mas pode desenvolver manias

Longe de ser uma ideia comum, criar ovelhas como pets não oferece risco, mas pode alterar o comportamento do animal, segundo a veterinária especializada em bem-estar de ovinos Norma Centeno Rodrigues.

— A ovelha é um animal gregário. Normalmente, vive em rebanhos. Ter um animal desses como bicho de estimação pode gerar um sofrimento, fazer com que ele desenvolva manias — observa.

Segundo a especialista, animais deslocados de seu ambiente natural podem apresentar comportamentos repetitivos, como andar de um lado para o outro, o que demonstra angústia. Nesses casos, é preciso procurar um veterinário.

Apesar da solidão do bicho, destaca, não há maiores problemas em se ter uma ovelha em casa, desde que ela tenha um espaço apropriado e receba os cuidados necessários ao seu desenvolvimento. De comportamento manso, o animal tende a aceitar a aproximação das pessoas. É melhor, no entanto, conhecê-la um pouco mais antes de acariciá-la na cabeça.

— A ovelha tem como característica cabecear. é algo comum dos ovinos, que têm uma caixa craniana específica para isso. É um risco. Mas, quando ela é criada como pet, pode ser que não desenvolva alguns comportamentos.

 
 
 
 
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