Litoral Norte

Fuligem de incêndio se acumula em praias do Litoral Norte

A fuligem que tomou conta de praias próximas ao local do incêndio também é vista por veranistas em pontos mais distantes, como em Capão da Canoa, a 50 quilômetros ao norte de Cidreira

Por: Bruna Scirea - de Capão da Canoa
08/02/2017 - 11h01min | Atualizada em 08/02/2017 - 20h38min

Veranistas que circulavam pela orla de praias como Capão da Canoa e Curumim, no Litoral Norte, precisavam desviar de rastros de resíduos escuros que se depositavam por toda a faixa de areia na manhã desta quarta-feira. Muitos banhistas haviam acompanhado a brusca mudança na paisagem litorânea, iniciada no dia anterior. Segundo relatos, pouco depois das 15h da terça-feira, o mar mudou de cor e, repentinamente, começou a despejar na areia sedimentos que pareciam carvão, brasa, ou até mesmo partículas oriundas de um vulcão, como imaginaram alguns.

Com a ajuda dos salva-vidas, a informação se espalhou rápido entre os banhistas: o material preto era resquício de vegetação queimada, fruto de um incêndio em uma área de plantação de pinus em Cidreira, praia localizada cerca de 60 quilômetros ao sul dos pontos mais poluídos pela fuligem. O fogo em uma propriedade privada de 16 mil hectares teve início no último domingo, provavelmente ocasionado em função de acampamentos irregulares que ocorrem próximo ao local, na Lagoa da Fortaleza. As chamas se alastraram com força durante a terça-feira devido à ação do vento, queimando cerca de 1,2 mil hectares. Nesta quarta, equipes particulares e do Corpo de Bombeiros seguiam no local combatendo os focos do incêndio, então já menor.

– Ontem (terça-feira), o vento estava soprando do continente para o mar e levou a fuligem para o oceano. Hoje o vento está soprando do mar para o continente, trazendo todo este material de volta para a areia – afirma o comandante da corporação em Cidreira, capitão Jocemarlon Acunha.

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Lilian Soga, 31 anos, cabeleireira em Caxias do Sul, foi cedo ver como a orla de Curumim havia amanhecido. Com familiares e o cachorro, deu uma volta rápida sobre a areia e voltou para a casa.

— É triste ver a praia assim. Ontem o mar estava azul escuro, tão bonito, a areia tão limpinha. E de repente a água começou a trazer tudo isso para fora. Até continuamos entrando no mar, mas saíamos com os pés e pernas cheias disso, que parece filete de árvore mesmo — diz a veranista.

No entorno da guarita 50, os salva-vidas rastelaram a orla e reuniram parte do material em montes. Ficou para trás somente um buraco com água depositada, onde boiavam as partículas pretas. Nada que impedisse Gabriel Simonetti, sete anos, de aproveitar as férias à beira-mar. O garoto parecia ignorar a sujeira na praia: pulava sobre os acúmulos pretos para chegar ao mar.

— Ele achava que era alga, não se importou muito, continua brincando. Só que na verdade é algo muito triste. Isso é para a gente ver como a natureza é inteligente. O mar está devolvendo para nós aquilo que não foi ele que produziu — afirma a mãe do menino, Claci Simonetti, moradora de Porto Alegre.

De acordo com a Fundação Estadual de Proteção ao Meio Ambiente (Fepam), a fuligem chegou às praias mais ao norte de Cidreira em função da ação dos ventos e das marés. No trecho entre Tramandaí e Pinhal, os resquícios do incêndio não seriam perceptíveis na orla.

— Na segunda ventava muito em todo o Litoral e, com isso, o fogo aumentou na área do incêndio, formando uma espessa nuvem escura, que carregava partículas e se deslocava em direção ao oceano, chegando a alto-mar. Este material é o mesmo que agora foi carregado pela maré e despejado sobre algumas praias do Litoral Norte — explica Caroline Moura, engenheira florestal da Fepam.

O órgão acredita que, em comparação com a dimensão do oceano e da faixa de areia, o volume dos resíduos do incêndio é muito pequeno para provocar danos a banhistas e ao meio-ambiente — equipes seguirão monitorando a situação para verificar uma possível contaminação na água. Por enquanto, não há indícios de prejuízo à balneabilidade nas praias.

A Fepam verifica ainda se a empresa florestal dona da área atingida estava com licenciamento em dia e se tinha o Plano de Prevenção Contra Incêndio (PPCI). Consultada por Zero Hora, a Secretaria do Meio Ambiente de Capão da Canoa, informou na tarde da quarta-feira que aguardava um posicionamento da Patrulha Ambiental da Brigada Militar (Patram) sobre o que fazer com os resíduos depositados na areia.


 
 
 
 
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