Em frente a um dos cartões-postais de Havana, o Capitólio Nacional, que foi a sede do governo de Cuba após a revolução, em 1959 (e atualmente é a sede da Academia Cubana de Ciências), fica também um dos melhores restaurantes da categoria "bom e barato" da cidade, o Los Nardos. E, claro, as filas são permanentes.
Curiosas para conhecê-lo durante viagem para Havana, em maio de 2012, eu e a colega Larissa Roso enfrentamos uma média de 40 minutos de espera nas duas vezes em que estivemos lá. Valeu a pena. A comida era saborosa e farta, com porções generosas (fossem camarões ou filés), que dispensavam a entrada. Com pesadas cortinas escuras, o ambiente, iluminado por velas, era de um requinte desgastado pelo tempo (como quase tudo em Cuba). Mas o que mais nos surpreendeu foi o atendimento dos garçons, que serviam como se estivessem fazendo amigos em um bar. E não se intimidavam em fazer perguntas pessoais, buscando criar intimidade.
- ¿Dónde viven?
- ¿A dónde van después de la cena?
- ¿Les gusta bailar?
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Se, em um primeiro momento, estranhamos a aproximação ostensiva dos garçons, depois percebemos que esse é um traço da cultura local. Sem a lógica capitalista do "patrão-empregado-cliente", frequentemente cubanos sentem-se como "sócios" de onde trabalham. Não por acaso, em um resort em que nos hospedamos em Varadero, o funcionário responsável pelas toalhas costumava escapar do posto para cair na piscina também. Afinal, o patrimônio era coletivo - não privilégio dos hóspedes.
Mulheres desacompanhadas sofrem um pouco com as cantadas ostensivas, mas a simpatia do povo fala mais alto.
*Repórter do caderno PrOA