
O laudo final que tenta desvendar se o ex-presidente João Goulart foi fulminado por um ataque cardíaco ou envenenado sai na próxima segunda-feira. Porém, com o risco de o resultado ser inconclusivo, é possível que continuem as interrogações sobre a morte do líder trabalhista, em dezembro de 1976.
A chance de um parecer sem definições é admitida pelo governo brasileiro e pela família Goulart desde a exumação do corpo do político gaúcho, em novembro do ano passado, em São Borja. Como Jango foi sepultado há quase 38 anos, existe o temor de que eventuais substâncias letais já não sejam mais identificadas.
- Vamos aguardar o resultado final. Fizemos tudo o que estava ao alcance do governo para realizar uma verdadeira exumação da história. Encerrar esse capítulo com um laudo é o mínimo que devemos aos familiares e à sociedade - afirma a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência (SDH), Ideli Salvatti.
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Desde a última segunda-feira, peritos brasileiros e estrangeiros analisam em Brasília, no Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, exames realizados após a exumação. Dois laboratórios, um espanhol e outro português, fizeram testes toxicológicos em amostras de ossos e tecidos do ex-presidente. Já um laboratório paulista analisou os gases retirados do jazigo.
Até o fim de semana, os técnicos cruzam dados e preenchem um formulário, no qual constam 10 perguntas elaboradas por peritos do Ministério Público Federal (MPF). Neto de Jango e médico, João Marcelo Goulart acompanha os trabalhos. Na segunda, a família terá acesso ao laudo final, que após será entregue à Comissão Nacional da Verdade e tornado público.
Ciente da possibilidade de um resultado indefinido, a família defende que as apurações prossigam, com depoimentos de testemunhas e de agentes da repressão, bem como a desclassificação de documentos americanos.
- Se houver um apontamento inconclusivo, esperamos que o processo continue, porque a exumação é apenas uma parte da investigação - defende Christopher Goulart, neto do ex-presidente e advogado do instituto que leva o nome do avô.
A retomada das investigações foi um pedido feito pela família ao MPF, diante de depoimentos sobre um possível envenenamento do ex-presidente, deposto e exilado pelos militares, dentro de uma conspiração de ditaduras do Cone Sul. Jango tinha pressão alta, fumava, abusava da carne gorda e do uísque. Contudo, seu corpo não passou por autopsia e seu atestado de óbito consta apenas a palavra enfermedad (doença) como causa da morte.
Relembre o caso
Em novembro de 2013, o corpo de João Goulart foi exumado. O governo brasileiro atendeu um pedido da família, que em 2007 solicitou ao MPF a reabertura da investigação da morte do político.
Em 1964, Jango era presidente da República quando foi deposto pelo golpe militar. Exilado, morreu na Argentina, em 1976.
Após suspeitas de envenenamento, a exumação tenta esclarecer se o político teve uma morte natural ou se foi assassinado. Exames toxicológicos foram feitos em amostras retiradas do corpo do ex-presidente para encontrar eventuais substâncias letais. O laudo final será divulgado na segunda-feira.
Laboratórios
Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (Portugal)
Serviço Externo de Ciências e Técnicas Forenses (Espanha)
Tasqa Serviços Analíticos (Brasil)
Peritos
Polícia Federal: Amaury Allan de Souza Junior, Alexandre Raphael Deitos, Gabriele Hampeel e Jeferson Evangelista Correa
Argentina: Patricia Bernardi e Marina Selva
Uruguai: José López Mazz e Alicia Lusiardo
Cuba: Jorge Perez
Portugal: Mario João Dias
Espanha: Aurelio Luna
Fonte: SDH
Veja imagens da movimentação em São Borja: