Transfeminismo

Artista faz performance com o próprio útero em Porto Alegre

Ação demorou 34 horas e foi realizada na galeria Península 

17/03/2017 - 21h39min | Atualizada em 21/03/2017 - 16h55min

A artista Dani d'Emilia apresentou em Porto Alegre a performance U TE(A)R US, em que interagiu com o seu próprio útero. O título é um jogo de palavras com "útero" e a expressão em inglês para "você nos rasga". A ação, que teve duração de 34h, ocorreu entre as 10h de sábado, na galeria Península, e as 20h de domingo. Quem passou em frente à galeria, no número 351 da Rua dos Andradas, pôde conferir o trabalho, que chamou a atenção dos transeuntes. 

Diagnosticada com um mioma, Dani d'Emilia decidiu passar por uma cirurgia para retirar o útero em 19 de janeiro (ela poderia ter optado por retirar apenas o mioma). Desde então, conservou o órgão em um recipiente de vidro com formol para realizar a performance, que marcou os dois meses da operação e não deverá ser repetida. A duração tem a ver com a idade da artista, conforme ela explicou antes de realizar o trabalho:

– Essa ação duracional de 34 horas marca uma hora para cada ano que eu convivi com o meu útero dentro de mim. Tenho 34 anos no momento. Ela se propõe a externalizar a nossa relação, criar uma interação extra corporal. E abrir um novo momento na minha vida com uma série de liberações que a retirada desse órgão me permite. 

Durante as 34 horas, a artista vestiu uma roupa branca, bebeu apenas água e só comeu ovos cozidos enquanto fazia exercícios para sentir o peso do órgão, que, devido à doença, inchou e atingiu o peso de quase um quilo. Com o ato, ela quis abrir uma discussão sobre os pesos simbólicos que recaem sobre o útero.

– Essa expansão do meu órgão simboliza o peso que ele teve de carregar. O útero historicamente é disputado pelos poderes patriarcais e neoliberais. E isso cria uma série de pressões e pesos. A gente internaliza pressões com relação à maternidade que vêm com um semblante de espiritualidade, de ciclos naturais, de aparências que estão nutridas por sistemas econômicos que necessitam da reprodutibilidade humana. Não ter filho é uma escolha muito forte socialmente.

Dani esclarece que não é contra a maternidade, apenas defende a soberania das pessoas sobre seus próprios corpos: 

– Não é um órgão sobre o qual o Estado e a Igreja deveriam ter mais controle. 

O aspecto estético do órgão também interessa à artista, que compara o útero a uma escultura. 

– Ele tem essa beleza abjeta que me interessa muito. Sinto que parí uma escultura de uma monstruosidade maravilhosa, uma escultura criada pelo corpo nos contextos nos quais ele transitou, nas narrativas que eu introjetei, nas experiências que tive, pelas substâncias que consumi, além da carga genética. 

Dani d'Emilia é pedagoga, artista e transfeminista, ou seja, reivindica que as causas do feminismo incluam, além de mulheres, pessoas trans e não-binárias (indivíduos que não se identificam com nenhum gênero). Além disso, leva em consideração raça, sexualidade, gênero, classe, corpos não-normativos, entre outras categorizações. 

Nascida na Itália, a artista morou em Porto Alegre entre os 5 e os 18 anos. Passou temporadas na Inglaterra, em Portugal e na Espanha e atualmente está radicada no México, onde trabalha no Proyecto Inmiscuir ao lado de Daniel B. Chavez. É co-fundadora da companhia de teatro imersivo Living Structures (UK) e do atelier de artistas Roundabout.lx (PT). Entre 2011-2016 integrou o coletivo transnacional de performance La Pocha Nostra (MX/US), que se apresentou no Estado em 2013.

Leia o texto da artista sobre a performance: 

U TE(A)R US
performance duracional de Dani d'Emilia

No dia 19 de Janeiro de 2017 eu me tornei um corpo sem útero. Parí meu útero como uma ação de arte-vida, tornando visível essa complexa escultura socio-corporal nutrida durante 34 anos por sistemas biológicos e ideológicos que estiveram atuando em mim.

Durante os dias 18 e 19 de Março, dois meses após a cirurgia, meu útero e eu estaremos nos relacionando extra-corporalmente em uma ação duracional de 34 horas (uma hora para cada ano que estivemos juntxs). Durante este tempo estarei sentindo seu peso, composto não só por sua materialidade mas também pelos significados pessoais, pressões sociais e poderes institucionais que operam sobre este órgão.

U TE(A)R US
Galeria Península (Rua dos Andradas, 351, no centro de Porto Alegre)
Das 10h de sábado (18/03) às 20h de domingo (19/03)

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