Obituário

Aos 87 anos, morre o flautista Plauto Cruz

Um dos maiores instrumentistas gaúchos sofria de Parkinson e de Alzheimer e estava internado no Hospital de Clínicas desde quinta-feira 

Por: Zero Hora
29/07/2017 - 00h08min | Atualizada em 29/07/2017 - 16h28min
Aos 87 anos, morre o flautista Plauto Cruz Anderson Fetter/Zero Hora
Familiares, amigos e músicos prestaram últimas homenagens no velório do flautista Plauto Cruz, no Cemitério Parque Jardim da Paz, em Porto Alegre Foto: Anderson Fetter / Zero Hora  

Um dos maiores músicos instrumentistas do Rio Grande do Sul, o flautista Plauto Cruz, 87 anos, morreu na noite desta sexta-feira (28), em Porto Alegre. Em seus últimos anos de vida, o músico sofria com problemas de saúde causados pelo Parkinson e pelo Alzheimer, que ganharam força nos últimos seis anos, conforme familiares. 

Uma das filhas de Plauto, Marlene Cruz, 57 anos, disse que o pai foi realizar uma consulta no Hospital de Clínicas da Capital na última quinta-feira (27). No local, os médicos constataram piora no quadro de saúde do paciente e resolveram interná-lo para intensificar o tratamento. No entanto, ele faleceu no dia seguinte.

— Ele era um grande pai, um grande músico — sintetizou Marlene.

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O músico era viúvo de Eva, com quem foi casado por quase 50 anos e teve seis filhos, além de netos e bisnetos. O velório de Plauto Cruz começou às 8h deste sábado (29) na capela F do Cemitério Parque Jardim da Paz. 

A partir do início da tarde, com a proximidade do horário do enterro, às 16h, se tornou crescente o número de amigos, familiares, apreciadores e antigos companheiros de música que compareceram para se despedir de Plauto.

Nomes como Raul Ellwanger, Guaraci Gomes, Carlitos Magallanes e Betinho Baraldo, entre outros, prestaram homenagens no velório do virtuoso flautista.

O secretário Estadual da Cultura, Victor Hugo Alves da Silva, conversou com a família na capela sobre homenagens futuras que poderão ser feitas em eventos. Pessoas que ajudaram Plauto em momentos de dificuldade marcaram presença. Foi o caso de Graça Garcia, integrante do movimento "Um por todos e todos por Plauto", que arrecadou R$ 29,5 mil em dois shows beneficentes em novembro de 2012. À época, o músico passava por dificuldades financeiras e o dinheiro recolhido ajudou na manutenção do tratamento médico e na compra de remédios. 

— Foi o maior movimento em prol de um artista gaúcho — conta, orgulhosa, a também artista Graça Garcia.

Músico e pesquisador, Paulinho Parada, 28 anos, refletiu sobre o esquecimento e outras dificuldades impostas aos artistas gaúchos ao comentar o falecimento do amigo.

—(A morte) Faz a gente pensar muito no cuidado que temos de ter com a memória. Assim como o Plauto, temos outros artistas da noite e da velha guarda que necessitam ser lembrados. Precisamos olhar essas obras, pensar no problema do artista do sul em comparação com o do Rio e de São Paulo. É também um sinal para olharmos para os direitos autorais, proteção e formas de arrecadação. O Plauto sofreu muito com a dificuldade do sistema de arrecadação de direitos autorais.

Paulinho Parada ainda recordou a sua ligação afetiva com o flautista, que começou na infância.

— Eu o conheci através do álbum Engenho e Arte, que foi meu presente de 6 anos de idade. Meu avô me deu. O Plauto era muito generoso, devo muito da minha formação ao carinho que ele teve. Em 2007, gravamos juntos um disco (Paulinho Parada - Minhas Águas) e, desde então, tivemos grande amizade — contou.  

Foto: Achutti / Divulgação

Vida e obra

O flautista nasceu em 15 de novembro de 1929 em São Jerônimo. Filho do flautista José Alves da Cruz, revelou desde a infância o talento para o instrumento. Em 1944, a família mudou-se para Porto Alegre, onde o jovem Plauto passou a se apresentar em eventos e programas de rádio.

A trajetória de Plauto foi das principais emissoras de Porto Alegre, como contratado, aos palcos do Brasil, ao lado de personalidades como Lupicínio Rodrigues, Orlando Silva e Elis Regina. Ele atuou também em programas de TV, mas foi ao viver a época de ouro do rádio que arrebatou auditórios nas emissoras Clube Metrópole, Itaí, Farroupilha, Gaúcha e Difusora. 

Segundo o site do Dicionário da MPB, Plauto gravou seis LPs e dois CDs como solista e mais de 40 discos como acompanhador. Foi o arranjador da música Maria Fumaça, da dupla Kleiton e Kledir (assista abaixo), que deu o nome ao show de estreia da dupla, que levou o nome da canção e tornou-se um dos hits da carreira dos irmãos. 

Plauto conquistou vários prêmios em festivais nos quais participou como flautista e compositor ao longo da carreira. Foi premiado com 60 honrarias e troféus, entre elas a medalha Simões Lopes Neto, concedida pelo governo do Rio Grande do Sul.

Tocando na noite, encantou o público nas melhores casas de Porto Alegre, entre elas, o Vinha D¿Alho e o Viva Maria. Em 2010, a sua flauta ainda emitiu belas melodias todas as quintas-feiras no Bar Odeon, no Centro da Capital. Na época, em reportagem do Diário Gaúcho, sentenciou:

– A música é só amizade, é o que a gente tem de maravilhoso na vida.

Obras vinham sendo digitalizadas

Plauto Cruz gravou dezenas de obras. Muitas delas acabaram se perdendo no tempo e outra parte ainda vive, mas sem acesso fácil. Para reverter essa situação, o Acervo Plauto Cruz passou, conforme reportagem de ZH de abril deste ano, a digitalizar e colocar na internet a discografia do mestre do choro.

A plataforma escolhida pelo idealizador do projeto, o músico e pesquisador Paulinho Parada, para receber a obra foi o YouTube. No canal que leva o nome do flautista, já estão alocados, além de O Choro é Livre (1978), os álbuns Remanso (1993, com Mário Barros), Choros e Canções (1999), 26 Anos de Parceria (2003, com João Pernambuco) e Engenho e Arte (1996, com Mário Barros).

O projeto começou a ser desenhado oficialmente em 2014. A ideia, segundo Paulinho, é privilegiar a obra de Plauto como compositor e intérprete, uma vez que, como músico acompanhante, não há sequer registro da quantidade de canções gravadas por ele:

— O Plauto tocava muito, acompanhava qualquer músico que fosse gravar um disco na (gravadora) Isaec, por exemplo. Por isso, temos participações dele desde em discos de artistas que não estouraram aos grandes nomes, como Kleiton e Kledir e Lupicínio.

Como mestrando em Música na UFRGS, Paulinho estava ampliando sua pesquisa para outros grandes nomes da música gaúcha que caíram no ostracismo:

— Temos uma série de músicos e instrumentistas, que atuaram ali pelos anos 1950, 1960, 1970 e por aí adiante, mas que não se preocuparam em organizar sua obra. É um pouco de olhar e perguntar porque essa gente está esquecida e o que podemos fazer para valorizar esses artistas — comentou Paulinho. — Até para que, no futuro, não se repitam mais esses cânones europeus com tanta veemência ao invés de, por exemplo, Plauto Cruz.

 
 
 
 
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