História ao piano

Antonio Adolfo relembra músicas das bandas 3D e Brazuca e do disco "Feito em Casa"

Músico se apresenta nesta quinta-feira no Instituto Ling

Por: Juarez Fonseca
09/03/2017 - 08h00min | Atualizada em 09/03/2017 - 08h00min
Antonio Adolfo relembra músicas das bandas 3D e Brazuca e do disco "Feito em Casa" Divulgação/Divulgação
Foto: Divulgação / Divulgação  

Mais do que ouvir um pianista histórico, de renome internacional, quem for ao show de Antonio Adolfo no Instituto Ling, hoje, compartilhará duas marcas únicas: ele acaba de completar 70 anos e está comemorando 40 do lançamento de Feito em Casa, primeiro disco independente brasileiro. O roteiro do show tem músicas desse trabalho, do último (Tropical Infinito, de 2016) e de vários momentos da carreira registrados em cerca de 30 álbuns.

O carioca Antonio Adolfo Maurity Saboia (daqui para a frente apenas AA) é músico profissional desde os 16 anos, quando começou a acompanhar cantoras como Leny Andrade no Beco das Garrafas, point dos verdes anos da bossa nova. A partir daí, criou grupos que fizeram época, como o 3D, de bossa 'n' jazz, e a Brazuca, que a isso agregava pinceladas de soul music. Seu auge de popularidade deu-se no início dos anos 1970, com canções em parceria com Tibério Gaspar (falecido agora em 15 de fevereiro), como Teletema — sucesso que ajudou a catapultar a audiência de Véu de Noiva, primeira novela da Globo com assuntos e personagens contemporâneos. Pois, logo depois desse auge, AA decidiu aprofundar os estudos. Entre outros passos, viveu uma temporada em Paris estudando com Nadia Boulanger e, na volta ao Brasil, com o maestro Guerra-Peixe.

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— Naquela época eu fazia alimentação natural e compunha sem parceria. Quando voltei ao Brasil, em 1976, resolvi dar aulas de música e fiz gravações como músico e arranjador para muita gente da MPB — lembra AA. — Muitos me perguntavam: "E a Brazuca? Você fez tanto sucesso! Não vai mais fazer música para novela?". Mas eu estava bem mudado. Preferia romper com tudo aquilo.

Seria um rompimento radical, pois, antes de "dar um tempo" para a canção popular, ele também vira o país inteiro cantando Sá Marina, com Wilson Simonal; Juliana, com a Brazuca; e o soul BR-3, que vencera o V Festival Internacional da Canção na voz de Toni Tornado. Ainda era requisitado arranjador e músico de estúdio, gravando com Chico Buarque, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Nara Leão, Edu Lobo e muitos mais, além de ter excursionado pela Europa com Elis Regina. A primeira evidência do rompimento a que se refere foi o LP Feito em Casa, gravado aos poucos em um pequeno estúdio no centro do Rio, onde costumava produzir jingles publicitários.

Gravação caseira,capas artesanais

— Resolvi gravar algumas das músicas que havia feito durante esse período de vácuo profissional. Chamei amigos e gravei músicas inéditas, instrumentais. Apenas três eram cantadas, uma por mim, outra por Malu e a terceira por Joyce, sem letra. E assim foi. Tinha um naipe de sopros, com Oberdan Magalhães e Marcio Montarroyos, tinha o Luizão Maia e o Jamil Joanes no baixo, Luiz Claudio Ramos na guitarra, Rubinho na bateria...

Com a fita na mão, AA foi mostrar o trabalho aos amigos que dirigiam as principais gravadoras — afinal, era um músico conhecido, já lançara quatro LPs com o 3D e dois com a Brazuca, além de um álbum solo. Mas só ouviu negativas: "Não estamos interessados, preferimos seu som com a Brazuca etc. e tal". Resolveu pesquisar como poderia lançar o disco sem gravadora.

— O Tim Maia, que havia gravado o LP Racional com aquele pessoal do Universo em Desencanto, me deu algumas dicas. Mas aprendi mesmo foi indo direto à fábrica Tapecar, onde acertei uma pequena tiragem do vinil, e a uma gráfica, onde pedi para fazerem capas sem nada escrito montadas e coladas do lado avesso, com aquela cor de papelão. Escolhi o título Feito em Casa e chamei uns amigos para me ajudarem nas capas. Cada um fazia uma ilustração e escrevia os textos. Assim criamos 50 capas. Como dava trabalho, tive a ideia de fazer dois carimbos, um com o título e outro com meu nome, e comprei almofadas com tintas de cores diferentes. Encomendei 500 discos na fábrica e fomos carimbando-os, cada um de um jeito, daí que não havia uma capa igual a outra.

A imprensa apoiou a iniciativa. Jornalistas passaram a se referir ao sistema de "produção independente". AA vendia os LPs de mão em mão, ia pessoalmente às lojas pedindo colaboração, visitou redações de jornais e estações de rádio, começou a fazer shows. Feito em Casa era um sucesso que não dependia de gravadoras para nada. AA criara seu próprio selo, Artezanal (assim mesmo, com z). Às vezes chegava a vender mais de cem discos depois de um show.

— Resolvi então encomendar 3 mil cópias e parti Brasil afora com minha Belina, meu piano elétrico e caixas de discos. Às vezes chamava músicos do Rio para tocar, às vezes fazia com músicos locais, quando aproveitávamos para discutir sobre a produção independente. Outras vezes corria Brasil afora sozinho com o piano. Nessa hora, os sucessos de antigamente ajudavam muito na penetração na imprensa e rádios, para chamar o público para os shows.

Ao final de 1977, a iniciativa de AA estava consagrada e ele já planejava o segundo disco, Encontro Musical, que sairia no ano seguinte (mas desta vez com capa impressa). E a, digamos, ideologia do disco independente ganhava corpo influenciando muita gente. A partir daí, lançaram seus primeiros álbuns Danilo Caymmi, Luli e Lucina, Francisco Mario (irmão de Henfil), o Boca Livre (que vendeu mais de 100 mil cópias), o pessoal de São Paulo, tendo à frente Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Em Porto Alegre, Nelson Coelho de Castro lançou Juntos (1981) e Nei Lisboa lançou Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina (1983). Na mesma época começaram a surgir selos independentes, como Lira Paulistana e Kuarup. Nos anos 2000, a produção independente (com ou sem as leis de incentivo) se tornaria regra para a música instrumental, a MPB, o rock e os novos artistas.

— Acho que aquele era um momento histórico-musical propício a isso. As gravadoras estavam fechadas, só aceitavam o padrão comercial tipo novelas, música importada etc. O que eu achava importante era poder gravar e continuar dono da minha música, do copyright. Também fundamental: não haver censura estética. Podia-se gravar o que quisesse, sem ter que dar satisfação aos diretores das gravadoras. E assim é até hoje, um tempo em que a internet passa a ser um canal enorme para usarmos na divulgação, na distribuição etc. Continuo autoproduzindo e distribuindo meus discos, que graças à internet chegam a vários países.

Atualmente, AA se divide entre os EUA, onde costuma gravar, e o Rio, onde dirige a escola de música que criou em 1985, atualmente com 1,3 mil alunos. Tropical Infinito, o disco que está lançando, foi indicado ao Grammy de melhor álbum de jazz latino. São composições próprias e de autores norte-americanos como Horace Silver, Jerome Kern e Benny Golson. Seu selo agora se chama AAM Music.

SERVIÇO
Antonio Adolfo
Quinta-feira, às 20h. Instituto Ling (Rua João Caetano, 440, fone 51 3533-5700). Ingressos a R$ 40, à venda no local e em institutoling.org.br. O show contará com a participação de Lula Galvão (violão e guitarra).

 
 
 
 
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