
O oitavo filme de Quentin Tarantino teve estreia especial nos Estados Unidos no último dia 25, no formato originalmente concebido pelo cineasta: em gloriosos 70 mm, espraiando-se pela tela em uma largura feita sob medida para o western. Mais longa produção do cultuado diretor, com 2h48min de duração, Os Oito Odiados entra em cartaz no Brasil em 7 de janeiro - mas já na próxima sexta-feira haverá sessões de pré-estreia na capital gaúcha.
Tarantino lança seu novo filme em São Paulo
Leia entrevista de Quentin Tarantino em sua passagem pelo Brasil
No final de novembro, Tarantino veio ao Brasil divulgar seu novo longa, acompanhado do ator inglês Tim Roth, um dos nomes do elenco do segundo bangue-bangue assinado pelo americano. No encontro com a imprensa, o realizador lembrou que pretende parar de filmar daqui a dois títulos - apesar de muitos desconfiarem dessa decisão.
- Tenho uma contagem até 10. Vou parar de fazer filmes lá. Mas não estava pensando em Fellini quando comecei a contar meus filmes - disse o diretor, referindo-se ao mestre italiano que, em 1963, dirigiu 8½, depois de ter realizado sete longas e um segmento de filme.
Em Os Oito Odiados, Tarantino retorna ao faroeste depois de Django Livre (2012), maior sucesso comercial do cineasta até agora. A história se passa alguns anos depois da Guerra Civil Americana (1861 - 1865), em uma estrada perdida em Wyoming, Estado do noroeste americano, em meio a um rigoroso inverno. A caminho da cidade de Red Rock, para onde está levando para a forca a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) em uma diligência, o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell), conhecido como O Carrasco, topa com um colega de profissão: o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), ex-soldado da União, célebre pela maneira implacável como persegue os fugitivos da justiça e por levar consigo uma carta escrita para ele pelo presidente Abraham Lincoln (1809 - 1865). Outro caroneiro ainda vai se juntar aos passageiros: o confederado Chris Mannix (Walton Goggins), sujeito racista que se apresenta como o novo xerife de Red Rock.
Por conta da nevasca, o grupo é obrigado a fazer uma parada no Armazém da Minnie - mas, quando chegam ao isolado entreposto, os viajantes são recebidos por quatro rostos desconhecidos: o mexicano Bob (Demián Bichir), que está tomando conta do local, o enforcador Oswaldo Mobray (Tim Roth), o vaqueiro Joe Gage (Michael Madsen) e o general sulista Sanford Smithers (Bruce Dern).
Os Oito Odiados não padece da irregularidade de ritmo de Django Livre: Tarantino acertou a mão nesse novo bangue-bangue, que vai crescendo em termos de tensão dramática até uma explosão de violência inaudita na parte final - com divertidos episódios em meio à trama e um flashback narrativo revelador, recurso que lembra Pulp Fiction (1994). Além da bela fotografia de Robert Richardson e da montagem ágil de Fred Raskin, merece destaque a envolvente música do filme: é a primeira vez que o realizador trabalha com uma trilha sonora original, assinada pelo célebre compositor italiano Ennio Morricone - autor das partituras de westerns como Por um Punhado de Dólares (1964), Três Homens em Conflito (1966) e Era uma Vez no Oeste (1968).
"As Sufragistas" aborda luta das ativistas do raiar do século 20
Números revelam crescimento acentuado do mercado de cinema
- Uma das coisas que eu queria fazer nesse filme é que não houvesse nenhum herói. Não há nenhuma gravidade moral de herói ali. Todos poderiam ser vilões em outros filmes. Se você cresceu vendo Bonanza, sabe que os episódios não eram sobre os personagens principais, mas sobre secundários, que sempre tinham um passado questionável - explica Tarantino, que conversou com Zero Hora.
*O jornalista viajou a convite da Diamond Films
7 FILMES E UM TARANTINO
CÃES DE ALUGUEL (1992)
Já está tudo aqui: o manuseio inteligente dos códigos do cinema policial, a hiperviolência gráfica, os diálogos verborrágicos, a singular trilha sonora de raridades e esquisitices. Um filme que definiu um estilo.
PULP FICTION (1994)
Tarantino potencializa as características de sua estreia ao costurar tramas e personagens em um ziguezague narrativo desconcertante, condimentando com humor e ação esse xis-tudo de referências pop. Palma de Ouro em Cannes e Oscar de roteiro original.
JACKIE BROWN (1997)
O diretor bebe na fonte do cinema blaxploitation, produzido e estrelado por atores negros americanos na década de 1970, para mostrar os golpes de uma aeromoça trambiqueira (Pam Grier, veterana musa desse tipo de filme). Desta vez, Tarantino não conseguiu transcender o pastiche.
KILL BILL: VOLUME 1 e 2 (2003 e 2004)
Uma Thurman encarna uma assassina profissional em busca de vingança contra as ex-colegas de bando e o ex-amante, que transformaram sua festa de casamento em um banho de sangue. A matriz são filmes de artes marciais e histórias em quadrinhos.
À PROVA DE MORTE (2007)
Ao lado do chapa Robert Rodriguez, Tarantino revisita as sessões duplas de filmes B dos anos 1970 nesse projeto que reúne duas produções - Rodriguez assina o filme de zumbi Planeta Terror. As perseguições de carros de À Prova de Morte são de tirar o fôlego.
BASTARDOS INGLÓRIOS (2009)
Talvez a obra-prima do cineasta. Parodiando filmes de guerra como Os Doze Condenados (1967), Bastardos Inglórios homenageia o dom de iludir do cinema ao reescrever a História e fazer justiça poética tarantinesca metralhando Hitler e seus odiados.
DJANGO LIVRE (2012)
Primeira incursão de Tarantino no western, o filme mostra um escravo liberto (Jamie Foxx) que tenta livrar a amada do domínio de um sádico fazendeiro sulista (Leonardo DiCaprio). Apesar de irregular, rendeu o segundo Oscar de roteiro original ao diretor.