Antônio Carlos Zago é pura motivação em seus primeiros dias de Inter. Desde que retornou de férias, na cidade de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, onde vive a mãe, Odete – o pai morreu de câncer, ainda novo, aos 53 anos –, o técnico se mudou para o CT Parque Gigante. Passa boa parte do dia no QG do departamento de futebol colorado, ao lado do vice, Roberto Melo, do executivo, Jorge Macedo, e do analista de desempenho Maurício Dulac.
Mesmo nas férias, Zago não parou de assistir a vídeos recebidos do Centro de Análise e Prospecção de Atletas (Capa). Já observou mais de 30 jogadores. Admite que não está fácil contratar. Se pudesse ganhar um reforço de presente, escolheria Lucas Pratto. Mas ainda sonha com Taison e deverá receber, em breve, zagueiros que saibam sair jogando e um centroavante – além de laterais.
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Nesta entrevista a ZH, Zago, 47 anos, pai de três filhos e que espera para fevereiro o nascimento do quarto, Domênico, afirma que quer montar um "Inter dos sonhos". Deseja um time com a cara do Atlético de Madrid, de Diego Simeone, seu desafeto nos tempos de Roma x Lazio.
Cita ainda o italiano Antonio Conte, treinador do Chelsea, como um modelo a ser seguido e fala sobre o que não tolera em um jogador:
– Não brigar pela bola ou não dividir me deixa louco. Se quer me ver nervoso na beira do campo, é ter um jogador assim. Ninguém é obrigado a jogar bem, mas todos são obrigados a correr, a se dedicar.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
Na apresentação oficial, o senhor se antecipou e, antes que lhe perguntassem sobre a acusação de racismo, no Caso Jeovânio, em 2006, resolveu falar sobre o tema. Por quê?
É um assunto que já foi arquivado, um erro. Estou chegando a um clube que abriu as portas para a raça negra no futebol. Entrei no tema de forma espontânea porque me arrependo muito daquilo, foi uma mancha que ficou em minha carreira. Me arrependo, mas não tenho como voltar atrás. Espero que a marca que fique agora é a do Antônio Carlos treinador, e não a do Antônio Carlos jogador.
A temporada 2017 começará na quarta-feira. A torcida colorada está esperançosa e aguardando reforços. Até agora, somente Roberson chegou. Quando as coisas vão deslanchar?
O único clube chinês do Brasil é o Palmeiras. Só eles têm dinheiro para contratações. O mercado vai ser feito em meio à pré-temporada também. Enfrentamos as dificuldades que o Corinthians enfrentou em 2008 (quando estava na Segunda Divisão). Estamos na Série B, mas é o Inter. Temos um projeto. Isso vai fazer com que o jogador apareça também. E ele precisa pensar nisso. Está acostumado a jogar a Série A, mas o Inter é uma das grandes forças do país. Vai voltar para a Série A e espero que volte com a mesma força do Corinthians, que saiu da Série B e, em alguns anos, ganhou Brasileirão, Libertadores e Mundial.
O Inter trará nomes da sua confiança, como o Roberson e Klaus (ambos foram jogadores de Antônio Carlos no Juventude)?
Coloquei na vitrina seis ou sete jogadores da base do Juventude, e eles apareceram. Estão prontos para jogar em qualquer clube do Brasil. Roberson era o mais experiente. Ainda não tinha recebido uma sequência na carreira. Soubemos trabalhar com Roberson no último ano, quase não teve contusões e fez 16, 17 gols na temporada, além de dar assistências. Chegou ao ápice da carreira precisando de uma oportunidade, que terá agora. Indicar jogadores, indico. Conversei com o Roberto (Melo) e com o Jorge (Macedo) sobre ele. E aceitaram contratá-lo. Tudo é feito na base do consenso. Há outros que analisamos e descartamos.
Como tem funcionado esse QG colorado para as contratações?
Recebi vídeos e estamos analisando muitos jogadores, analisando o mercado e perfis. Faremos contratações pontuais, para que não desperdicemos dinheiro.
Mas há falta de dinheiro, falta de nomes... Quais são os problemas para contratar?
Há duas posições em falta no futebol brasileiro: uma é atacante, aquele cara que realmente faça gols. O goleador do Brasileirão marcou apenas 14 gols, o Fred. O melhor centroavante do Brasil é argentino: Lucas Pratto (do Atlético-MG). Ele é habilidoso, grande, técnico e não erra. Gosto de trabalhar com um cara dentro da área. É o sonho de qualquer equipe. Mas acho que tem uma oferta de um clube chinês ou do chinês do Brasil: o Palmeiras. E faltam zagueiros também. Gosto de zagueiro que saiba jogar. Eu sabia jogar. Chegava firme, tinha personalidade, era impositivo em campo, mas sabia jogar.
Klaus e Neris são zagueiros assim?
Klaus começou a aparecer no último ano. Neris é mais experiente. Mas, para disputar a Série B, talvez precisemos de gente ainda mais experiente.
De cara, você perde o Sasha.
É uma perda importantíssima. Não tenho os números dos últimos anos, mas o que vem atrapalhando-o são as lesões, os meses parados. E é um jogador no qual o Inter vem apostando bastante. Tomara que, depois dessa nova cirurgia, ele tenha sequência. Espero-o para abril, depois do Gauchão. É um jogador que me agrada, diferente, sabe fazer gols. Pela altura, cabeceia muito bem. Conto bastante para a Série B.
O que você pôde ver do D'Alessandro?
Queira ou não, é um dos três maiores ídolos do clube. É um jogador que ganhou tudo no Inter. Tem liderança. E, acima de tudo, está jogando bem. Eu não quero jogador para ser líder ou fazer intermediação com a direção. Quero jogador para jogar futebol, participar dentro de campo. E o D'Alessandro, dentro do que fez no último ano, pode contribuir muito.
Tem espaço nesse time para Alex, Anderson e D'Alessandro?
Estamos conversando. São três jogadores, dois com uma história bonita no clube. Alex ganhou quase tudo aqui. E o Anderson está buscando seu espaço. São jogadores interessantes. Vejo que os três podem não jogar na mesma posição. Cada um dentro da sua posição, do seu momento. Mas vamos resolver internamente para ver o que de melhor fazemos para o Inter.
Hoje, um jogador que se impõe em campo é o D'Alessandro. Você identifica outros assim?
Lembro do Inter como uma equipe competitiva, difícil de levar gols. Teve um excelente começo no Brasileirão e, depois, teve a queda. Não sei o que houve, e os jogadores acabaram se perdendo, assim como a comissão e a direção. Todo mundo se perdeu. Quando chega a um momento como aquele, tudo praticamente está errado. Todos contribuíram para que o Inter caísse à Série B. É o momento de a gente reconstruir o Inter. Queremos que os jogadores se apresentem com vontade de recomeço. Não adianta o cara ficar, dizendo que quer colocar o Inter na Série A. Falar é a fácil. Quero ver em campo. Espero que esse espírito seja aflorado em campo.
Qual a diferença de jogar uma Série B?
As distâncias são maiores, os dias da semanas são diferentes – na terça, na sexta e no sábado. É um campeonato mais corrido, mais truncado. Os jogadores não têm a mesma técnica daqueles que jogam a Série A, não têm o mesmo ritmo. Um clube grande não pode entrar na Série B só com o nome. Tem de entrar com vontade de sofrer. Vamos pegar o Corinthians como exemplo: classificou-se com cinco ou seis rodadas de antecedência. Não dá para repetir o Vasco, que deixou para a última rodada. É importante termos bons exemplos.
Como vamos ver esse Inter dentro de campo?
Falar é fácil (risos). Eu espero que seja o Inter dos sonhos. Alguns erros que eu cometi na minha carreira, como falamos no início da entrevista, foram por excesso de vontade. As pessoas que me conhecem fora de campo, sabem que eu sou um santo. Agora, dentro de campo, se a minha mãe estivesse em campo, eu procurava passar por cima dela. Sou de família muito pobre, filho único. Trabalhei desde os 12 anos, o futebol foi a única saída que eu tive. Mas eu espero um time competitivo, que brigue 95, cem minutos. Tem um cara com o qual discuti muito no futebol, até tenho um relacionamento e gosto de ver os times dele jogar, que é o Simeone. Vem fazendo um baita trabalho no Atlético de Madrid. Você lembra do tempo em que ele jogava? Era muito chato. A gente não podia se ver em campo, que já se batia. O Atlético tem a mão do treinador, e espero fazer o mesmo com o Inter.
Tem ideia de plano tático?
Estamos conversando. Até demorei para vir para a entrevista, porque já começamos a conversar. Mas eu não sou preso a um esquema tático. Eu sou brasileiro, mas queira ou não, fiz os cursos na Itália. Se pegar o Antonio Conte, por exemplo, foi para a Inglaterra e joga com três zagueiros. E lá é aquele 4-4-2 de cem anos atrás. E ele colocou um 3-5-2, e o time é líder do Campeonato Inglês, é superofensivo, faz gols, foge das características do italiano, que é mais defensivo. Mas queira ou não, o Chelsea vem fazendo ótimas apresentações, perdeu depois de uma série de 13 vitórias.
Em que o seu momento fora do Brasil ajuda o Inter?
Não dá para trazer tudo. Eu odeio o tal do rachão, desde quando eu jogava aqui. Lá fora, não existe rachão. No sábado, os caras treinam 45 minutos a mil, é a preparação para o jogo, precisa colocar na cabeça aquilo que você vai fazer na partida. Não vou dizer que não vou dar. Vai ter um ou outro, e o boleiro gosta. Eu não gostava porque era muita brincadeira, meu time perdia, e eu ficava p... Nunca gostei de perder nada. Dei graças a Deus quando fui para fora e não tinha. Então, essa é uma das coisas das quais não gosto.
O que mais o irrita em um jogador?
O cara não brigar, não dividir, não disputar a bola. Isso me deixa maluco. O cara tem de ir na boa, mas também dividir todas as bolas. Tem de estar cem minutos concentrados. Nenhum jogador é obrigado a jogar bem. Mas precisa correr para caramba, é obrigado a treinar. Nenhum jogador é pago para jogar, é pago para treinar e correr. E jogar bem é reflexo daquilo que você vai fazer. O cara tem que deixar tudo dentro de campo. Mentalmente, ele precisa estar morto. Vai dormir no dia seguinte, 4h, 5h da manhã. Chegou cansado no dia seguinte? Vou dizer para descansar. Mas, dentro de campo, precisa deixar tudo.
Você cobra caixinha se o jogador se atrasar?
Jogador não dá importância para aquilo que ele ganha. Não vai interferir muito em chegar atrasado ou adiantado. Fiquei sabendo que teve jogador que pagou R$ 2 mil ou R$ 3 mil de caixinha. Isso não existe, é absurdo. O cara prefere perder R$ 500 para chegar cinco minutos depois. Eu cobro muito horário. Fora de campo, procuro não saber. Mas as coisas chegam...
Ajuda ser ex-jogador?
Mudou em relação à minha época. Tem empresário, amigo do empresário, o amigo do amigo, são 10 pessoas que acompanham. Nunca tive procurador. Às vezes, o cara vai muito pelo empresário, não ouve o técnico. Falo com carinho do Telê Santana, que só faltou me pegar pela orelha. Se chegava de carro novo, ele procurava saber.
Roberto Melo sempre gostou muito de você ter procurado se especializar no Exterior. O que esses cursos o fizeram evoluir no vestiário?
Tive a prática ao longo de toda a minha carreira. Sou um cara calado, sempre observei treinadores. O que me faltava era a parte teórica, de olhar uma partida com outros olhos, de ver o vestiário como treinador e não como jogador. Eu cresci muito em relação ao meu começo, em 2010, no São Caetano. Eu não xingo ninguém, trato todo mundo com educação. Os treinadores de fora são assim.
Você conta com Taison? É possível o torcedor sonhar com o retorno dele?
Eu o quero amanhã. A esperança é a última que morre, e a minha também. Seria importantíssimo. Se vier para o Brasil, vem para o Inter, seja na Série B, na Série C ou na Série D, pelo carinho, por ter crescido aqui, por ser torcedor. Sempre espero contar com grandes jogadores. Como pessoa também, tive a oportunidade de trabalhar dois anos com ele no Shakhtar, tem uma conduta incrível no dia a dia, é um superprofissional.
Você parece muito entusiasmado com o trabalho no Inter.
Eu sou entusiasmado com o futebol, com a minha profissão. É uma profissão de m... porque, no final, vai tudo na b... do treinador. Se quisesse ser diretor, teria ficado no Corinthians. Quando eu estava no Shakhtar, tive proposta do Palmeiras para voltar como diretor de futebol e preferi ficar como auxiliar. Eu queria ser treinador. Seja no Inter ou no Ubiratã, do Mato Grosso do Sul, onde eu comecei... Mas é lógico, quando você chega ao Inter, fica mais empolgado.
Já andou por Porto Alegre, teve contato com o torcedor?
Não conheço nada ainda de Porto Alegre. Fui ao shopping, a uma churrascaria. O que o torcedor fala é "vamos lá, temos de trabalhar para colocar o Inter na Série A". O torcedor vai contribuir para que o clube volte à Série A. A gente espera os estádios lotados. Quando um clube cai, tem uma mobilização maior da torcida. Temos de contar com todo mundo.
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