
Vestidas de verde-amarelo, com faixas e cartazes em punho e disposição para quase 10 quilômetros de caminhada, milhares de pessoas defenderam o impeachment da presidente Dilma Rousseff em Porto Alegre, na tarde deste domingo. Também ganharam destaque na manifestação os gritos de "fora PT" e de apoio ao juiz Sérgio Moro, da Operação Lava-Jato.
Diferentemente dos protestos de março e de abril, em que a maioria dos cartazes levantados era contra a corrupção na política e os desvios na Petrobras, no ato de ontem a maior parte das críticas foi direcionada à esquerda, em especial a Dilma e Lula.
"Coxinhaço" em Porto Alegre ironiza manifestações contra Dilma
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A concentração teve início às 14h no Parque Moinhos de Vento, o Parcão. Apesar do mau tempo, intercalando momentos de garoa e de céu nublado, gente de todas as idades e famílias inteiras se aglomeraram na Avenida Goethe, entre três trios elétricos.
Um deles carregou os integrantes da Banda Loka Liberal, que deu o tom da mobilização, adaptando tradicionais marchinhas de carnaval. Uma das letras dizia: "se você acha que protesto é golpe, protesto não é golpe não", em resposta aos críticos que classificam como golpistas os defensores do afastamento da presidente Dilma.
Em frente ao QG do Exército, grupo pede intervenção militar
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- Nosso principal objetivo é pressionar pelo impeachment, sim, porque entendemos que é o melhor para o país. Mais de 70% dos brasileiros reprovam o governo - disse o porta-voz do Movimento Brasil Livre (MBL-RS) no Estado, Christiano Huber Neto, 36 anos.
O descontentamento em relação ao governo federal foi visível do início ao fim do ato, que não chegou a entrar no Parque Farroupilha (Redenção) e passou longe do bairro Cidade Baixa, onde ocorreria mais uma edição do "coxinhaço" - o contraponto bem-humorado da esquerda à manifestação da direita, cujos simpatizantes são chamados de "coxinhas".
Sem incidentes graves registrados, a passeata seguiu pacificamente por ruas e avenidas. Das janelas dos prédios, recebeu apoio e retribuiu em aplausos. Em apenas duas ocasiões, bandeiras vermelhas do PT foram sacudidas diante da multidão, causando furor e vaias.
Na Avenida Ipiranga, o grupo fez uma parada diante da sede da Polícia Federal. Em um dos carros de som, o locutor chamou os agentes de "heróis". A homenagem teve como foco a Operação Lava-Jato, que desvendou o esquema de corrupção na Petrobras.
Demonstrações de apoio à volta dos militares ao poder foram pontuais, tanto quanto expressões favoráveis ao retorno da monarquia. Nem mesmo a defesa do impeachment, apesar de predominante, foi consensual.
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David Coimbra: você tem direito de se manifestar?
- Não acho que seja o momento de tirar a presidente. Estou aqui para apoiar o juiz Sérgio Moro - resumiu a professora Márcia Silveira, 46 anos.
Ao todo, segundo estimativa do MBL, um dos organizadores do ato, 65 mil pessoas participaram da ação na Capital. De acordo com a Brigada Militar, foram 30 mil. Na última manifestação, em abril, ambos contabilizaram 40 mil integrantes.
Veja imagens da manifestação em Porto Alegre:
Por Lula
O ambulante Josival da Silva Cosme, 51 anos, vendeu cem capas de chuva, 50 apitos, 30 vuvuzelas e oito bandeiras do Brasil até o início da passeata - produtos que sobraram da Copa do Mundo. Com R$ 300 de lucro, estava entre os defensores do impeachment de Dilma, mas por um motivo diferente: quer a volta de Lula.
Pedido de intervenção
Ao longo do percurso, em Porto Alegre, um grupo se dispersou da maioria e seguiu para o Centro Histórico. Em frente ao QG do Exército, os manifestantes pediram intervenção militar. Cantaram pelo menos quatro vezes o Hino Nacional, pregaram defesa da família e aplaudiram militares.
Um defensor da monarquia
Enrolado em uma bandeira do Brasil imperial, o administrador Dionatan Cunha, 26 anos, era um dos poucos a defender a volta da monarquia na Capital.
- Seria a melhor solução. A monarquia não tem partido político e não deve favores a ninguém - resumiu.
Briga de bandeiras
No mesmo prédio, no cruzamento da Avenida Goethe com a Rua Protásio Alves, a bandeira verde-amarela dividia espaço com símbolos do PT e a imagem de Che Guevara. Sobraram vaias para os ícones da esquerda.
O juiz que virou ídolo
Cartazes com o rosto do juiz Sérgio Morto, responsável pela Operação Lava-Jato, apareceram ao longo de todo o protesto. O magistrado virou ídolo. Em uníssono, os manifestantes repetiram várias vezes o grito de "dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe Moro".
Pela polícia
Na Avenida Ipiranga, manifestantes passaram em frente à sede da Polícia Federal. Mais uma vez, cartazes em homenagem ao juiz Sérgio Moro.
De outro lado
Evento ao som de roda de samba aconteceu na esquina da Lima e Silva com a República, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Entre os organizadores do Coxinhaço estava o Bloco da Diversidade.