Saúde

Santa Casa de Porto Alegre fechou 112 leitos do SUS em dois anos

Ao deixar de receber repasses do governo do Estado, hospital teve de reduzir vagas de internação para tentar equilibrar as contas negativas

11/01/2017 - 22h34min | Atualizada em 11/01/2017 - 22h34min
Santa Casa de Porto Alegre fechou 112 leitos do SUS em dois anos Omar Freitas/Agencia RBS
Fechamento de vagas agrava superlotação no setor de emergências de pacientes que ficam esperando por um quarto Foto: Omar Freitas / Agencia RBS  

Na sala com capacidade para 12 pacientes, 28 amontoavam-se na última sexta-feira em camas a poucos centímetros umas das outras. A emergência da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre estava tão apertada que, em alguns casos, os doentes ficavam deitados quase lado a lado — não havia espaço para passagem entre uma cama e outra.

A superlotação é um dos reflexos da perda de 112 leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) no hospital, que deixou de receber verbas do Estado. O corte do incentivo hospitalar, no início de 2015, que destinava cerca de R$ 300 milhões por ano aos estabelecimentos, representou menos R$ 15 milhões anuais no caixa da instituição. Depois, o Piratini passou a atrasar repasses dos serviços contratados com hospitais filantrópicos. Só com a Santa Casa, a dívida é de R$ 7 milhões.

Em todo o Rio Grande do Sul, a perda leitos nos últimos dois anos eliminou 474 vagas hospitalares reservadas a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) – uma média de 20 por mês. 

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Com falta de verba, veio o fechamento de leitos a conta-gotas em 2015 na Santa Casa da Capital: 41 em junho, 10 em setembro, 17 em outubro, 10 em novembro e 34 em dezembro.

— Tínhamos 680 leitos para o SUS, agora estamos com 568. É como se um ou dois hospitais do Interior fechassem as portas, porque muitos não têm 50 leitos. Nossos atendimentos pelo SUS caíram de 71% para 63% — lamenta o diretor financeiro da Santa Casa, Ricardo Englert.

Com dores pós-operação, quatro dias até obter vaga

Isac Soares de Oliveira, 28 anos, teve complicações após uma cirurgia e precisou aguardar mais de 96 horas na emergência Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Na sexta-feira passada, um dos que sofria com o aperto na emergência era Isac Soares de Oliveira, 28 anos. Ele aguardava leito havia quatro dias. Morador de Esteio, passou duas semanas internado na cidade até ser encaminhado para a Capital, com suspeita de câncer nos rins. Na Santa Casa, teve diagnosticada inflamação que resultou na retirada de um órgão. Operado em 14 de dezembro, recebeu alta 10 dias depois e pôde passar Natal e Ano-Novo com a família. Mas a comemoração durou pouco: em 2 de janeiro, um líquido começou a vazar dos pontos, causando muita dor, o que o levou de volta à emergência da Santa Casa.

— Não vejo a hora de ir para um quarto. Aqui é muito agitado, a gente não consegue nem dormir. É uma vergonha — relatou Oliveira, que foi transferido para um leito apenas no final da tarde de sexta.

 Tabela de serviços defasada aumenta prejuízo

Eram os repasses cortados e atrasados pelo Estado que tapavam parte do prejuízo causado aos hospitais filantrópicos por causa da desatualização da tabela de valores pagos pelo SUS, segundo o diretor financeiro da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Ricardo Englert. O administrador reclama que, embora os custos tenham subido, o SUS paga o mesmo valor pelo atendimento dos pacientes há 15 anos. Na prática, isso significa que de cada R$ 100 para o tratamento de um doente, as instituições só recebem o ressarcimento de R$ 65.

— Sem a atualização da tabela e sem os repasses do Estado, começamos a pedir dinheiro emprestado para os bancos para manter os hospitais, pagando juros. Essa dívida virou uma bola de neve e tivemos de começar a fechar leitos — explica o diretor, que teve de contratar crédito no valor de R$ 8 milhões para pagar o salário de dezembro dos funcionários.

Foi o gargalo que obrigou o hospital a fechar 112 leitos do SUS, que deixam sem atendimento 336 pacientes por mês, 4 mil ao ano. A perda de vagas ainda agravou a lotação da emergência, que há dois anos só dá conta de casos muito graves. E chegou a ter 35 pessoas à espera de leito, três vezes mais do que a capacidade.

— Para onde estão indo esses mais de 300 pacientes que deixamos de atender por mês? A consequência disso é que morre gente — lamenta Englert.

Paciente teve alta após cinco dias aguardando por um quarto

Espera de Silvia pela internação em quarto demorou tanto que ela acabou sendo tratada na própria emergência e teve alta Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Com insuficiência renal crônica, diabetes e hipertensão, Silvia Regina de Mello Souza, 43 anos, é paciente da Santa Casa há 22. Moradora de Porto Alegre, por causa da saúde frágil é internada com frequência no local e atualmente não consegue trabalhar. Chegou à emergência na quarta-feira (4/1) da semana passada com muitas dores e recebeu indicação para internação. Passou cinco dias na agitação da sala de urgência até receber alta, na segunda-feira (9/1).

— Sempre me tratei aqui e a coisa nunca esteve tão ruim. Há uns dois anos, cheguei a esperar no máximo 12 horas por um leito. Agora, fico dias — criticou a paciente, que acabou indo embora sem ter passado por um quarto.


 
 
 
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