Sul do Estado

"Em 40 anos no mar, nunca vi uma situação dessas", diz mestre do barco que acompanhava Dom Manoel XVI

Jaci Manoel dos Santos é irmão do comandante da embarcação desaparecida na última sexta-feira

Por: Anderson Aires - de Rio Grande
12/08/2017 - 15h43min | Atualizada em 13/08/2017 - 10h01min
"Em 40 anos no mar, nunca vi uma situação dessas", diz mestre do barco que acompanhava Dom Manoel XVI Lauro Alves / Agência RBS/Agência RBS
Jaci Manoel dos Santos Foto: Lauro Alves / Agência RBS / Agência RBS  

Na madrugada de sexta-feira (11), durante o desaparecimento da embarcação pesqueira Dom Manoel XVI, o barco que o acompanhava na navegação, o Dom Manoel XV, conseguiu chegar na costa de Rio Grande em segurança. O mestre desse segundo pesqueiro, Jaci Manoel dos Santos, 62 anos, é irmão do comandante do barco que segue desaparecido, Alcioni Manoel dos Santos, 53 anos. Outras seis pessoas estavam a bordo do Dom Manoel XVI. Neste sábado, Zero Hora conversou com Jaci, que afirma estar sofrendo com a incerteza em relação ao paradeiro não só do seu irmão de sangue, mas dos outros seis irmãos que a pesca lhe deu. Jaci recebeu a reportagem de ZH na embarcação que guiava na madrugada em que viu o seu irmão pela última vez.

Dentro do barco, com espaço apertado, cheiro de peixe e iluminado pelas diversas telas de radares, rádios comunicadores e equipamentos de navegação, Jaci embargou a voz diversas vezes ao lado do leme do Dom Manoel XV, que conseguiu escapar ileso do mar agitado naquela madrugada. O irmão e sua tripulação não tiveram a mesma sorte de chegar em terra firme. Pelo menos é o que se sabe até o momento após quase dois dias de buscas no mar de Rio Grande. 

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Veja os principais trechos da entrevista: 

Como foi o incidente que acabou com o desaparecimento da embarcação Dom Manoel XVI?

O mar era muito agitado. Era impressionante. Em quarenta anos que trabalho (no mar) nunca vi uma situação dessas. Estávamos na região do Farol da Solidão, em Mostardas, e decidimos voltar para Rio Grande na quinta-feira por causa das condições do mar. Saímos de lá (Farol da Solidão) perto das 14h30min de quinta. Faltando 13 milhas para chegarmos à barra de Rio Grande, por volta das 4h da madrugada de sexta, me deram o alerta de que ele (Dom Manoel XVI) havia sumido. Perdemos contato com o Dom Manoel XVI. Foi questão de segundos. E daí perdemos ele de vista.

O que o senhor acha que aconteceu com o barco?

A gente imagina que ele pegou uma vaga de mar muito grande e emborcou na onda. Quando a gente faz uma navegação, mantemos distância para que eu possa capitanear ele (Dom Manuel XVI) pelo radar para que a gente não se perca de vista. E foi uma coisa momentânea. Ele sumiu em questão de segundos.

O que o senhor fez após perder o contato visual com a embarcação?

Puxei pela posição (a localização do barco), pedi o auxílio da firma, eles me passaram a posição exata do naufrágio. Eu voltei, das 4h30min da madrugada até o amanhecer, tentando localizar alguma coisa, com a ajuda de mais duas embarcações, mas não achamos nada. Como a visibilidade era ruim e o tempo não me permitia permanecer no local para fazer uma varredura, uma busca, fui obrigado a voltar para a costa, pois não tinha condições (de navegabilidade). Eu poderia colocar em risco outra embarcação e mais sete vidas.

Como estava o mar no momento em que o senhor perdeu contato com a embarcação comandada pelo seu irmão?

A marola (onda) era de seis metros de altura. Por incrível que pareça, ela quebrava em alto-mar. E uma embarcação dessa não suporta, mesmo sendo de ferro. O mar tem muita força.

Por que o senhor resolveu seguir viagem mesmo com os aviso da marinha em relação ao mar agitado na região?

Quando a gente navega e pega uma de proa, conseguimos suportar um pouco mais. Mas de lado não tem como. A gente não esperava que essa altura de marola fosse nos pegar de lado. Isso complicou nossa navegação. Durante o dia estava tranquilo, tínhamos previsão de chegada à barra às 6h de sexta-feira.

Como o senhor está lidando com a incerteza em relação à localização do navio?

Quando há uma fatalidade, há um acidente e tu viu a pessoa, ela está aqui. O procedimento é fazer o enterro. Pronto, a dor passou. A pior coisa é um sequestro, um sumiço de uma pessoa, porque tu não tem noção do que está acontecendo, se essa pessoa vai aparecer. Então, a gente fica numa apreensão muito grande. Eu não queria nem vir aqui hoje (no porto). A emoção de chegar aqui e não ver (o barco do irmão ancorado). A gente anda sempre junto. Não só porque é meu irmão. Se fosse outro companheiro de trabalho, ele também teria que estar aqui do meu lado, atracado junto, fazendo todos os procedimentos juntos.

Como é o contato visual de vocês à noite?

Funciona pelo radar e pelas luzes de navegação. Andamos sempre em linha, porque eu faço o comando e ele (Dom Manoel XVI) me acompanha.

O senhor mantém a esperança de encontrar o seu irmão e os tripulantes da embarcação com vida?

Sinceramente, não. A gente tem que ser realista. Milagres acontecem. Só deus, mas é complicado (localizá-los com vida). A gente torce para que isso aconteça. Todos eles para mim são irmãos.

 
 
 
 
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