Erro policial

"Agora estou aliviado", diz universitário preso por engano após passar noite em delegacia

Jovem foi detido no domingo como suspeito pela morte do estudante de marketing Gabryel Machado Delgado, 20 anos, baleado em assalto na terça-feira passada. Outro suspeito foi localizado nesta segunda-feira e confessou o crime

20/03/2017 - 18h04min | Atualizada em 21/03/2017 - 12h31min
"Agora estou aliviado", diz universitário preso por engano após passar noite em delegacia Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Verdadeiro suspeito foi detido nesta segunda-feira  Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS  

O jovem universitário preso por engano no domingo pelo latrocínio (roubo com morte) do estudante de marketing Gabryel Machado Delgado, 20 anos, foi liberado na manhã desta segunda-feira, após o verdadeiro suspeito ser detido pela polícia. 

O rapaz de 22 anos, cujo nome é preservado, passou a noite de domingo na delegacia e ficou aguardando até que a testemunha do crime fizesse o reconhecimento pessoalmente. 

A confusão começou a partir de um retrato falado divulgado pela polícia após o depoimento de um amigo da vítima que presenciou o assalto. As características do desenho surpreenderam até o jovem universitário que nada tinha a ver com a história. 

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Por ironia do destino, ele era amigo de Gabryel, pois serviram o Exército juntos.

— Também achei o retrato falado muito parecido comigo e pretendia me apresentar na delegacia para provar que não era eu. Mas não deu tempo. Estava de repouso em casa por causa de uma infecção na perna. Só voltei a andar no sábado — contou o jovem.

Uma denúncia chegou até a polícia e a testemunha do latrocínio de Gabryel — ocorrido na terça-feira passada, no bairro São Geraldo, na Capital — reconheceu o universitário como autor por meio de uma foto. 

Na noite de sexta-feira, um juiz plantonista decretou a prisão temporária do rapaz. No domingo pela manhã, a polícia cumpriu o mandado e o prendeu em casa.

Para piorar a situação, o universitário pensou que a residência estava sendo assaltada e pegou uma faca na cozinha para se defender. Quando abriu a porta, deparou com os agentes. 

— Tentei manter a calma e não pensar em nada. Sabia que a verdade viria à tona. Tinha provas de que passei a noite no hospital no dia do assassinato — relatou o estudante. 

Na manhã desta segunda, a polícia prendeu um suspeito identificado como Flávio William Oliveira da Silva, 20 anos. Ele foi detido em abordagem da Brigada Militar (BM) ao dirigir um carro clonado em Eldorado do Sul, na Região Metropolitana. 

Ele confessou ter assaltado e matado Gabryel. A testemunha, que antes havia apontado o universitário pela foto, fez reconhecimento pessoalmente e indicou Flávio como o verdadeiro autor do crime. Libertado após o engano, o jovem desabafou:

— Nunca aconteceu nada desse tipo comigo. Agora estou bem tranquilo.

Confira a entrevista abaixo trechos da entrevista concedida pelo universitário a Zero Hora:

Como foi passar a noite na delegacia?

Fiquei numa cela com mais três (homens). Era muito apertada. Tentei ficar tranquilo, se ficasse nervoso seria pior. Não senti fome e nem tive vontade de dormir. Não conseguia pensar em nada. Essas 24 horas pareceram muito mais longas. 

O que você pensou quando viu o retrato falado?

— Ficou parecido comigo. Não tinha me apresentado na delegacia ainda porque estou com uma infecção na perna e só voltei a andar no sábado. Pretendia ir hoje (segunda-feira) e mostrar os documentos do pronto-atendimento onde passei a noite no dia (do assalto). Estava de atestado da faculdade e do trabalho por causa disso. No sábado, comecei a me sentir melhor e estava combinando de voltar para o trabalho. No domingo, fui surpreendido pela polícia na porta da minha casa. 

O que você pensou quando os agentes bateram à sua porta?

— Ouvi o barulho (às 6h) e achei que fosse alguém entrando para assaltar. Peguei uma faca grande de cozinha e abri a porta. Quando a polícia me viu, mandou eu abaixar a faca e ir para a parede. Me botaram na viatura e reviraram a minha casa. Não acharam nada que me colocasse na cena do crime. Não me contaram como chegaram em mim. Mas imaginei que fosse por causa do retrato falado e sabia que conseguiria esclarecer. 

Você conhecia o Gabryel?

— Sim, conhecia. Servimos juntos no quartel em 2015. 

Você se sentiu injustiçado?

Em parte sim, mas eu era parecido com o retrato falado. Agora que tenho as provas, fui solto, o outro (suspeito) assumiu que foi ele. Na delegacia, me colocaram ao lado do outro (suspeito) e a testemunha reconheceu o cara. Ele era mais baixo do que eu. Ele (a testemunha) disse que nunca me viu na vida. Mas estou muito aliviado, nunca aconteceu nada desse tipo comigo. Agora estou bem mais tranquilo.

 
 
 
 
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