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*Mestre em História Econômica pela FFLCH/USP
Algumas questões abordadas pelo professor Jacques Wainberg em seu artigo Estado Islâmico: Utopia e Mente Delirante, publicado em dezembro passado neste mesmo espaço, sobre o Islã e a atual conjuntura política do Oriente Médio, precisam ser analisadas através da História contemporânea da região. Na passagem do século 19 para o 20, "salafi" não possuía o significado de "fundamentalismo islâmico", pois era parte de um movimento reformista do Islã mais abrangente, a "Nahda" (em árabe, "Renascimento"). Seus principais pensadores, o iraniano Jamal Al-Din Al-Afghani, o egípcio Muhammad Abdo e o sírio Rashid Rida, propunham uma reforma política, social e cultural nas sociedades árabes e islâmicas sob domínio turco otomano e, depois, europeu. Essa proposta buscava legitimar a influência e o legado do chamado "Ocidente" e considerar o Islã compatível com a modernidade iluminista e científica. Buscava-se, assim, reformar as leis islâmicas e o sistema educacional, político e econômico, a fim de tornar a comunidade muçulmana ("Ummah") mais igualitária e democrática, inclusive quanto à equiparação da posição social da mulher e do homem. Mas como um pensamento filosófico e político dessa envergadura acabou dando lugar a fenômenos como guerra santa, fundamentalismo muçulmano e terrorismo?
Arábia Saudita e Irã protagonizam mais recente capítulo de uma crise permanente no Golfo
Para responder a essa pergunta, precisamos abordar os fenômenos políticos e econômicos ocorridos no Oriente Médio nos últimos cem anos, para evitar teses fáceis como a do "choque de civilizações". O imperialismo europeu (sobretudo inglês e francês), a fim de atender seus interesses políticos ("dividir para dominar") e econômicos, ocupou e dominou a maioria das sociedades árabes e islâmicas na Ásia e na África do fim da I Guerra Mundial (1918) aos anos 1950 a 1970. A criação de colônias com fronteiras artificiais (que depois se tornaram Estados), em que a realidade e o interesse das etnias e comunidades tradicionais de camponeses, beduínos e pequenos comerciantes não foram considerados, atendia também aos propósitos das oligarquias agrárias e das burguesias comerciais árabes e islâmicas, que, aliadas ao capital financeiro internacional, evidenciaram sua relação de dependência econômica e submissão política que caracterizou esta fase da história do Oriente Médio.
Em dezembro de 2015, miliciano patrulha o bairro de Hoz no centro de Ramadi, a capital da província de Anbar, no Iraque, a cerca de 110 quilômetros de Bagdá
Do fim da II Guerra Mundial aos anos 1970, ocorreram as independências nacionais, período em que as classes médias (militares, funcionários públicos, profissionais liberais, pequenos comerciantes) em países como Egito, Síria, Iraque, Argélia, Tunísia e Líbia executaram reformas políticas, sociais e econômicas como: emancipação feminina; alfabetização e criação de universidades; reforma agrária; industrialização e nacionalização de recursos energéticos (petróleo e gás). Essa etapa ficou conhecida como a era do pan-arabismo e dos "socialismos árabes", que, em maior ou menor grau, alinharam-se à URSS e instalaram repúblicas laicas e seculares, em que a religião era aceita e tolerada apenas no âmbito privado e não estatal, tendo alguns regimes, como o de Nasser no Egito, inclusive perseguido e aprisionado islamistas.
Paulo Fagundes Visentini: o enigma do Estado Islâmico
Com a derrota árabe na Guerra dos Seis Dias (1967), a fase nacionalista deu lugar a uma nova aliança entre a burguesia comercial e industrial árabe (Nasser morrera em 1970, e o Egito da "política de abertura" de Sadat agora era aliado dos EUA) e o nascente neoliberalismo internacional. Beneficiada pelo choque do petróleo (1973) e pela recessão econômica dos anos 1970 e 1980, essa nova burguesia privatizou bens públicos e estatais. Assim, os governos reformistas da esquerda nacionalista (o único comunista era o Iêmen do Sul), foram interna e externamente minados e, até os anos 1990, estavam em crise ou tinham colapsado (salvo na Argélia, Líbia e Síria), especialmente para atender aos interesses econômicos tanto dos EUA, da Europa ocidental e das instituições financeiras internacionais, quanto das monarquias conservadoras e petrolíferas do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Kuwait, Bahrein, Qatar, Emirados Árabes). Os sauditas já haviam se aliado ao Paquistão nos anos 1960 na criação da Organização para a Cooperação Islâmica (OCI), contra as esquerdas árabes e a URSS, a ponto de, na década de 1980, com os EUA, terem financiado, armado e treinado os "mujaheddin" ("guerreiros santos") afegãos contra a invasão soviética de 1979 e, por tabela, oporem-se à difusão da revolução islâmica iraniana.
Com propósito semelhante, os EUA (porém apoiados pela URSS) também armaram e financiaram o Iraque de Saddam Hussein na luta contra o Irã dos aiatolás, que, após a vitória da revolução, passaram a dominar o novo regime, com apoio inicial de vários setores do operariado e das classes médias urbanas, além do campesinato e até dos comunistas, todos contra a alta burguesia industrial e financeira iraniana, que sustentava o corrupto e autoritário governo do xá Reza Pahlevi, aliado dos EUA. Assim, tanto no caso dos islamistas afegãos quanto no apoio ao Iraque de Saddam contra o Irã, os EUA e a OTAN, com apoio logístico de potências médias regionais (Arábia Saudita, Turquia, Egito e Paquistão), incentivaram correntes do Islã sunita fundamentalista a atacarem e, se possível, a destruírem tanto as populações pobres e historicamente marginalizadas de curdos e xiitas, quanto as vias de desenvolvimento nacional autônomo representadas nas esquerdas árabes remanescentes. O cenário inicial de ação da Al-Qaeda estava montado.
A ideologia por trás do Estado Islâmico e de seu ímpeto de "salvar o mundo"
No Afeganistão, o projeto de partilha de poder feito pelo Ocidente a Bin-Laden e à Al-Qaeda não foi implementado e, no Iraque, que saiu da guerra contra o Irã politicamente enfraquecido e economicamente devastado, as promessas de investimento e desenvolvimento sócio-econômico, feitas pelos EUA e pela URSS em crise, tampouco se materializaram. Esse foi um fator preponderante, entre outros, para a invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990, que buscava minimizar sua penúria apoderando-se do petróleo kuwaitiano. Já a Al-Qaeda, cuja ajuda oferecida, porém rejeitada, para auxiliar os estadunidenses e os sauditas a expulsarem o Iraque do Kuwait, passou a dedicar-se, nos anos 1990, a cometer atentados terroristas contra posições dos EUA e de seus aliados no Oriente Médio e na África, onde bases e efetivos militares que para lá haviam sido deslocados em razão da guerra contra o Iraque não tinham sido retirados, "profanando o solo sagrado do Islã", segundo Bin-Laden.
Manifestantes carregam o esquife de homem morto em um atentado a bomba no sul de Beirute
Originalmente, a "Primavera Árabe" era legítima e popular (mas não "revolucionária" no sentido marxista). Suas principais conquistas foram a derrubada de ditaduras e a realização de eleições livres no Egito em 2012 (onde, porém, um golpe de Estado militar apoiado por EUA e Arábia Saudita depôs o governo democrático da Irmandade Muçulmana em 2013) e na Tunísia em 2014. No entanto, o fracasso dessas revoltas deve-se a que seu ativismo político não possuía coletivos e lideranças que reivindicassem uma plataforma social e econômica mais abrangente que, mais além de exigir o fim dos regimes autoritários e de sua repressão e censura, atacasse de frente as desigualdades sociais, a seca na agricultura e os reflexos da crise econômica mundial a partir de 2007, além de não ter-se posicionado contra os principais conflitos regionais: Israel-Palestina e o papel do sionismo, a ideologia conservadora saudita ("wahhabismo") e a questão energética (petróleo e gás). Assim, os propósitos da "Primavera" foram interna ou externamente interrompidos (Iêmen, golpe no Egito, intervenção saudita no Bahrein e bombardeios da Otan na Líbia) ou cooptados (oposição síria pelos jihadistas com apoio saudita e turco) por uma agenda conservadora, da qual o ISIS ("Estado Islâmico do Iraque e do Levante" - EI) é apenas o ator mais violento e visível na mídia, onde se trava uma "guerra de propaganda" benéfica ao grupo, que recruta militantes inclusive numa Europa em crise, cujos partidos da direita xenófoba discriminam os imigrantes árabes e muçulmanos e seus descendentes.
O futuro da política internacional no Oriente Médio
Como vemos, e contrariamente ao que o prof. Wainberg escreve, um "salafi" do Estado Islâmico não representa a figura do "crente ideal" da época do Islã de Maomé (século 7), ou mesmo do Islã medieval e otomano (séculos 8 - 19). Por isso, ele não pode servir como exemplo ao que o autor chama de "muçulmano contemporâneo", mas apenas como modelo deturpado que os "islamistas/jihadistas" têm de um Islã que é não histórico e distópico (e não "utópico", pois isso significaria libertação social), não se confundindo, portanto, com o conceito de "muçulmano" ou "islâmico". Ademais, as sociedades islâmicas que contribuíram, na Idade Média, para formar parte significativa do legado cultural e científico que temos hoje não podem ser comparadas aos objetivos de poder, à destruição e aos massacres que grupos islamistas (como o EI) praticam hoje na Síria, no Iraque e mundo afora. Assim, o EI não é "revolucionário", e nem "antimoderno"; ele é reacionário e (pós-)moderno, beneficiando-se do capitalismo (que só por mera retórica diz combater), a fim de se financiar (graças a doações de países, empresas e ONGs e ao contrabando do petróleo sírio e iraquiano) enquanto organização que busca tornar-se um Estado com inserção geopolítica no Oriente Médio. Por trás dos embates travados na Síria, Iraque e Líbia, desvenda-se uma estratégia a serviço dos interesses dos EUA, União Europeia e OTAN na região, que também é conhecida pelo nome de "proxy wars" ("guerras por procuração"), em que, ao invés de as grandes potências mundiais (EUA, União Europeia e Japão x Rússia e China) enfrentarem-se diretamente, fazem-no através de governos títeres, aliados ou dependentes, tática que a Rússia também utiliza para dar apoio ao governo sírio, seguindo-se a lógica de uma "Segunda Guerra Fria" (conceito do prof. Moniz Bandeira). Em caráter regional, o melhor exemplo disso é o papel que a Arábia Saudita tem desempenhado em sua luta contra as populações e os governos pró-xiitas de Irã, Iraque, Síria e Líbano do Hezbollah (o chamado "Arco da Resistência" xiita apoiado por Rússia e China na guerra síria). Aliada das demais petromonarquias do golfo Pérsico, do Egito pós-golpe, Paquistão e Turquia, os sauditas apoiam diretamente ou, pelo menos, toleram a contrarrevolução que o jihadismo sunita do EI e da Frente Al-Nusra representa, a fim de conter o avanço de uma agenda social e econômica redistributiva e mais igualitária (que só as esquerdas e os movimentos sociais da região, embora enfraquecidos e dispersos, podem impulsionar).
Legado nas relações internacionais para o ano que vem será de crise no Oriente Médio e um equilíbrio do poder multilateral
O acesso às reservas de petróleo e gás do Oriente Médio (e também da Ásia Central) continuará sendo, a curto e médio prazos, o ponto que determinará as intervenções das potências mundiais altamente dependentes do consumo de hidrocarbonetos e seus derivados, comprados de monarquias árabes autoritárias, cujo oligopólio desses commodities constitui-se na principal base de sustentação e sobrevivência de regimes em uma ordem social e política que lhes é cada vez mais hostil. Por isso, sobretudo ao capital financeiro transnacional (G-7, União Europeia, FMI e Banco Mundial) interessa um Oriente Médio enfraquecido e dividido por conflitos, cujas origens supostamente seriam sectárias, étnicas ou religiosas. Isso é falso, pois suas causas reais são de ordem política e econômica, em que os interesses das elites nacionais e de seus aliados globais consiga impedir uma verdadeira e objetiva possibilidade de revolução popular e de massas. Evidencia-se, portanto, que, após o fracasso da "Primavera Árabe", o longo "Inverno Árabe" que ora se inicia não se trata de uma batalha civilizacional do liberalismo contra o Islã político fundamentalista, mas que, na verdade, ambos retroalimentam-se e são interdependentes.