Tensão

A semana em que o Brasil soube da delação pós-apocalíptica 

Primeiras informações dos depoimentos da JBS provocaram a maior turbulência no mercado financeiro em quase uma década

19/05/2017 - 20h23min | Atualizada em 19/05/2017 - 20h27min

Se a delação da Odebrecht era aquela "do fim do mundo", e a da JBS veio depois, pode ser considerada "pós-apocalíptica". Tem números e efeitos compatíveis. A empresa, conforme seus proprietários, os irmãos Joesley e Wesley Batista, pagou propina a 1,8 mil candidatos de 28 partidos. E conseguiu eleger 179 parlamentares de 19 siglas. O maior valor individual, por seus relatos, foi ao PT, o equivalente a US$ 150 milhões em contas-corrente no Exterior.

Foi a partir dos relatos dos irmãos Batista que o presidente Michel Temer passou a ser investigado por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução à Justiça. Na história recente, isso só ocorreu com Fernando Collor de Mello, que sofreu impeachment no Congresso, mas foi inocentado no Supremo Tribunal Federal (STF) por "falta de provas".

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Apenas as primeiras informações que se tornaram públicas, depois de meses de um trabalho silencioso, provocaram a maior turbulência no mercado financeiro nacional em quase uma década, com queda de 8% na bolsa, que provocou baixa de R$ 200 bilhões no valor de mercado das empresas listadas. Deixou o país à beira de mais um ano de recessão — o terceiro. A situação só é comparável à ruína da Grécia, que está em depressão econômica há oito anos.

Mesmo com a recuperação parcial das perdas na bolsa e no câmbio, a situação de incerteza que gerou a turbulência permanece a mesma. Temer não renunciou, mas a sensação dos brasileiros é de que pode haver mudanças na principal sala do Palácio do Planalto a qualquer momento. 

As relações de políticos transformaram a JBS em uma espécie de caixa automático, aparentemente mais generoso do que outro franco financiador, a Odebrecht. Lá, a se acreditar no relato dos delatores, havia ao menos uma forma de "meritocracia" — com o perdão da ironia fora de hora — na divisão das propinas.

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Se essa constatação contorce o estômago, a tentativa de prever suas consequências provoca frio na barriga. Tente explicar a um estrangeiro a situação do Brasil: um presidente investigado e as duas primeiras pessoas na linha de sucessão têm inquéritos abertos por corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro. E isso ocorre em um país que precisa reduzir a dívida, aumentar a arrecadação, gerar empregos, voltar a crescer.

É certo que a reação de sexta-feira, com a bolsa subindo 1,69% e o dólar cedendo 3,89%, indica que a sensação de desabamento de quinta-feira foi demasiada. Mas é bom lembrar que esse sobe-e-desce é sinal de volatilidade, típica de situações de crise.

O Brasil precisa deixar para trás a síndrome pós-apocalíptica.

Leia outras informações da coluna de Marta Sfredo

 
 
 
 
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