Nada de sujeira

No trote, bixos da UFRGS são "obrigados" a contar histórias a crianças

Cada calouro da Biblioteconomia teve de doar no mínimo cinco livros para creche da Vila Planetário

17/03/2015 - 13h08min
No trote, bixos da UFRGS são "obrigados" a contar histórias a crianças Tadeu Vilani/Agencia RBS
Aspirantes a bibliotecários já puderam, na atividade, se familiarizar com a futura profissão Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS  

Vinte pares de pequenos olhinhos brilharam ao olhar a mesa que, entre tanta cor e tanto papel, escondia histórias de princesas, fadas, brinquedos e dinossauros. Doados à creche Piu-Piu, da Vila Planetário, os quase 300 livros arrecadados pelos calouros dos cursos de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) foram uma prova de que os trotes humilhantes estão saindo de moda, dando lugar à solidariedade. A atividade incluiu, ainda, contação de histórias às crianças.

A creche Piu-Piu funciona há 30 anos, mas, com poucos recursos, ainda não dispunha de muitos livros, embora uma minibiblioteca esteja em formação. A vizinhança com a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) fez com que a escola — cujos alunos são, em maioria, filhos de recicladores — fosse a escolhida para ser beneficiada com a ação solidária. Cada bixo teve de doar, no mínimo, cinco livros. Participaram 16 alunos do curso técnico e 50 do superior.

— É uma maneira de evitar trotes constrangedores e tornar o ambiente receptivo aos bixos de uma forma mais agradável — conta o veterano Bruno Luce, do segundo semestre da UFRGS, um dos organizadores do evento.

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O incentivo à leitura é parte do papel do bibliotecário, e a técnica para contar histórias faz parte do currículo acadêmico, de acordo com a professora Lizandra Estabel, coordenadora do curso no IFRS. Por isso, fazer com que os calouros lessem livros para a turminha já foi uma forma de iniciá-los na profissão.

— O bibliotecário é um mediador do conhecimento e trabalha diretamente com inclusão social. Queríamos, já de cara, mostrar isso aos nossos novos alunos — complementa a professora da UFRGS Eliane Moro.

E os bixos, embora em início de curso, se mostraram mesmo comprometidos em estimular nas crianças o prazer de ler. Segundo a coordenadora geral da creche, Jussara Beckstein, atividades com livros têm melhorado a relação entre os coleguinhas e entre eles e suas respectivas famílias, tornando-os mais atentos e afetivos.

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A universitária Ariel Oliveira, do primeiro semestre, incentivou-os a imaginar a voz dos personagens e deu ritmo à história de amizade entre o porquinho Lino e a coelhinha Lua — a “cancha” já vem do convívio com sobrinhos e afilhados.

— Na hora do conto, gosto de mostrar bem o livro e as ilustrações para fazer as crianças terem noção de que a história vem dali, daquele objeto tão precioso para a educação — aponta a caloura.

A tese de Ariel (“o mesmo nome da sereia!”, gritou alguém) parece ter fundamento. Depois do conto, quando houve pausa para uma brincadeira, o pequeno Alexander, 5 anos, perguntou, inconformado:

— Não vai mais ter livro?

 
 
 
 
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