Histórias de veraneio 

Luciano Potter: do Alegrete ao Litoral

A partir de hoje, sempre às quartas-feiras, Luciano Potter (em janeiro) e Paulo Germano (em fevereiro) contam o que fizeram em verões passados

Por: Luciano Potter
04/01/2017 - 05h04min | Atualizada em 04/01/2017 - 09h57min
Luciano Potter: do Alegrete ao Litoral Arte ZH/
Foto: Arte ZH  

Existem algumas ilegalidades nesta história, e peço que você entenda que tudo se passou há mais de 20 anos. Não quero ser processado nem que você olhe para mim como olha para alguém que, sei lá... orça 500 potes de Häagen-Dazs.

Fui criado no interior do Estado. Fronteira Oeste, Alegrete. Ou seja: quase que exatamente no meio dos oceanos. Longe do Atlântico e do Pacífico, o verão tem suas diferenças. Piscina é a coisa mais importante do mundo. Um buraco na terra cheio de água é santuário para uma região calorenta, baforenta. Mas, sobre isso, falarei outro dia. O que importa hoje é que seu Luis Nei e dona Marlene, meus pais, pegavam os seus quatro rebentos e atravessavam o Rio Grande rumo ao mar.

Eram férias dos colégios, e precisávamos da água salgada. Tudo certo, tudo lindo, corações acelerados numa viagem que precisava de três dias para arrumar as coisas no carro. Meu pai é PhD. Imaginando que a cachorreira – porta-malas para os chiques – é uma caixa (e a de uma Belina é bem grande), não existia espaço que ficava vazio para o doutor em bagageiros.

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Uma das peculiaridades dessa arrumação é que, bem em cima, na altura do banco de trás, era montada uma cama para a Kika, a caçula – como avisei antes que algumas irregularidades apareceriam, sigo firme. A pequena ía do Alegrete a Torres, ou Cassino, bem deitada. Isso ocasionava uma felicidade dos outros três sujeitos da parte central do carro. Eu, Gordo e Aline tínhamos mais espaço.

Você sabe que o caminho é longo. E uma vez demos um tiro arriscado. Passaríamos 20 dias em Laguna. Parece tranquilo, mas pense em 15 horas, seis viventes numa Belina, sem ar-condicionado, vidros abertos, uma gritaria para ouvir o outro, música em caixas de som porcaria e a coisa mais desesperadora para alguém que está viajando dentro de uma cápsula: um pacotinho de Cheetos. O terrível odor se espalhava na BR-101 inteira.

Num dos trechos dessa viagem, meu pai voava a 90 km/h. De repente, um Fusca velho caindo os pedaços nos ultrapassa.

Foi indignante. Os quatro filhos começaram a cobrar do pai velocidade. Ainda mais que os seres do Fusca passaram rindo da gente, apontando para Kika deitada. Um sentimento muito feio, confesso, tomou conta dos Da Silva Lopes. Era honra. E vingança.

A geringonça deles subiu uma colina e sumiu. Meu pai até conseguiu alcançar impressionantes 98 km/h, mas não tinha jeito. Ou nós jogávamos o Gordo e algumas malas fora, ou nunca mais veríamos aquele maldito Fusqueta.

Mas Deus observava tudo. Ao chegar no fim da colina, depois de escalarmos com a Belina, lá ao longe, na parte mais baixa dessa montanha, uma fumaceira nos assustou. Todos atentos, os Cheetos parados no pacote, tensão. Quando chegamos perto, uma surpresa. O motor do Fusca não suportou e arriou. Teve fogo, fumaça e meu pai passando bem devagar, todos os seis pendurados no lado direito do carro aplaudindo, debochados, quem outrora caçoava da gente.

Melhor que essa vingança automobilística só a piscina na casa do Alex no Alegrete. Mas isso conto semana que vem.

 
 
 
 
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