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Prova de Linguagens e Códigos do Enem vai muito além das palavras

Exame com maior abrangência de conteúdos exige do candidato conhecimento sobre artes, importância dos esportes e tecnologia

Por: Guilherme Justino
02/10/2014 - 08h03min
Prova de Linguagens e Códigos do Enem vai muito além das palavras Edu/Arte ZH
Foto: Edu / Arte ZH

Engana-se quem pensa que o conteúdo de Linguagens e Códigos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que ocorre nos dias 8 e 9 de novembro, se resume a português, literatura e língua estrangeira. Na prova – que é aplicada no segundo dia, junto a questões de matemática e à redação –, são também cobrados conteúdos de artes, educação física, tecnologias da informação e comunicação.

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– O aluno deve reconhecer que existem diversas possibilidades de expressar uma mensagem, e não só por meio de texto. Imagem, retrato e dança deixam claro que a linguagem não é só aquela que escrevemos, mas também o que gesticulamos, desenhamos etc. – explica Ávila Oliveira, professor de português no Unificado.

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Em meio a questões gramaticais e (muita) análise de textos, o aluno pode deparar com um quadro impressionista ou uma representação do corpo humano. Compreender as novas formas de comunicação também é importante: uma análise crítica sobre o papel das redes sociais pode muito bem acompanhar aquele denso texto de apoio, tão comum no exame.

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Essas outras linguagens, no entanto, não demandam muito conhecimento específico do aluno. Para acertar as questões, é fundamental entender a proposta de uma obra, por exemplo, e os métodos utilizados pelo autor para desenvolvê-la. Não raro, isso pode ser deduzido da análise da própria imagem apresentada no teste.

– As perguntas de artes não requerem conhecimento de artes plásticas, assim como não é preciso entender a teoria da educação física, e tecnologia não é cobrada especificamente. Recomendo analisar o enunciado e ir eliminando as alternativas que não se aplicam, porque o que se exige é a compreensão – destaca Flávio Azevedo, professor de literatura do pré-vestibular Mottola.

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Códigos e linguagens a decifrar

Língua estrangeira
Nenhuma outra prova do Enem é tão baseada em interpretação quanto as de inglês e espanhol. E nelas fica evidenciada a mesma variedade de gêneros que marca as demais disciplinas de Linguagens: tirinhas, letras de música, poesias e até peças publicitárias podem ser usadas para cobrar a compreensão de língua estrangeira. Assim, o conteúdo gramatical perde espaço.

– O mais importante é identificar a ideia central do texto. A prova geralmente não cobra minúcias – afirma Eduardo Folks, professor de inglês no Anglo.

Para tanto, o Enem tenta trazer as questões para o cotidiano do aluno, não raro recorrendo à cultura pop: há sempre alguma referência a artistas ou acontecimentos recentes. Na edição passada, foi mencionado Steve Jobs. Na anterior, Jimi Hendrix e J.K. Rowling motivaram um par de questões.

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Em espanhol, o destaque vai para os aspectos culturais: por vezes, mesmo sem ler o texto do enunciado, é possível chegar à resposta certa apenas por conhecer as características principais de um país. Entender o que leva ao turismo em Machu Picchu e o que significa o Dia dos Mortos no México ajudou candidatos a responder questões nos últimos anos, conforme Gabrielle Lafin, professora de espanhol no Anglo.

– Conhecer a cultura dos países hispânicos é importante: já caíram, por exemplo, questões sobre bilinguismo no Paraguai e uma cantiga popular em espanhol – diz ela.

O professor do Unificado Carlos Castillo reforça que compreender a mensagem principal é fundamental, mas ter domínio de verbos, conjunções e vocabulário em geral – ainda que não haja uma questão específica sobre gramática – costuma ajudar.

Litearatura
Sem leituras obrigatórias, as questões de literatura são basicamente focadas na análise textual – não só de livros. Nelas é preciso, além de entender o que o autor descreve, conseguir relacionar a produção com o contexto histórico em que foi concebida. Aspectos sociais e políticos de relevância para as obras abordadas também são uma constante na prova. Como resume o professor Flávio Azevedo, do Mottola, é preciso compreender o texto dentro de um contexto.

A divisão de obras em escolas literárias raramente é cobrada na prova. Maria Tereza Faria, professora do Universitário, explica que o importante é identificar o período em que o livro foi escrito e a influência, no texto, da época em que o autor vivia. Ter de relacionar Gregório de Matos ao barroco, por exemplo, não é comum.

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Indo ao encontro do que é cobrado na parte da prova dedicada à língua portuguesa, algumas perguntas apresentam poemas que flexibilizam a gramática. Exemplos frequentes estão em textos de Oswald de Andrade, um dos autores “preferidos” do Enem. A era modernista em que o paulistano viveu também é bastante cobrada, e linguagem coloquial e predomínio de versos livres – traços característicos do período moderno – caem com frequência.

Ainda que Linguagens não costume ter uma grande carga de atualidades, neste ano é bom ficar atento a alguns marcos literários. O professor William Boenavides, do Anglo, sublinha as recentes mortes de três grandes nomes da literatura brasileira: João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e Rubem Alves. As crônicas de um, peças de teatro do outro e a diversidade de obras do último podem influenciar algumas perguntas.

William destaca a opção do Enem por mostrar gêneros diferentes daqueles pelos quais os autores são mais conhecidos.

– Além da forte presença de textos não verbais, é constante a referência a textos em prosa de autores mais conhecidos por sua produção poética e de trechos de romances de autores mais conhecidos por seus contos – diz o professor.

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Português
Gêneros textuais, literários, musicais, teatrais: pode ser cobrado de tudo nas questões de Linguagens. É preciso concentração. Em uma prova com 90 questões de múltipla escolha (incluindo as de Matemática e suas Tecnologias) e uma redação, as 5h30min disponíveis acabam parecendo pouco.

– O grande custo que a prova cobra é paciência e fôlego para ler muitos textos, observar gravuras, compreender tiras de história em quadrinhos ou fotografias, entre outros – analisa Edson Otero Silveira, professor do Anglo.

Edson avalia que, historicamente, o Enem cobra pouco conhecimento gramatical puro. No entanto, ele defende que a correta interpretação de textos passa por um bom raciocínio sintático e gramatical, além da compreensão de gêneros textuais, níveis e figuras de linguagem. Nos últimos anos, segundo Edson, as questões que exigiam conhecimento dos mecanismos gramaticais cobraram basicamente conteúdos ligados a pronomes e nexos/orações.

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Outro aspecto valorizado é a diferença entre norma culta e linguagem coloquial. O exame não faz juízo de valor e cobra do aluno que entenda mesmo palavras grafadas incorretamente como representativas da diversidade cultural.

– No Enem não existe certo e errado na linguagem, mas adequado e inadequado – avalia o professor do Unificado Ávila Oliveira. – O candidato pode estudar variações linguísticas dentro do país.

Ávila explica que qualquer alternativa julgando errada a maneira como se fala em determinada região deve ser vista com cautela: afinal, a prova valoriza as diferentes formas como se fala no país – sem nunca deixar de lado a cobrança dos conteúdos necessários para que um texto funcione.

* Zero Hora

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