Racismo na Arena

Casa de gremista que cometeu ato racista na Arena é apedrejada

Segundo um morador que presenciou o ataque, pedras foram jogadas por vizinho na noite de sexta-feira

30/08/2014 - 13h17min

Com medo de ataques após a divulgação das imagens do jogo da última quinta-feira entre Grêmio e Santos na Arena, a jovem Patrícia Moreira da Silva, 23 anos – que foi flagrada chamando o goleiro santista Aranha de macaco –, fechou a residência, saiu de casa e buscou refúgio com parentes. O temor de Patrícia tem uma justificativa. Na noite da última sexta-feira, um vizinho tocou pedras numa janela, o que causou indignação entre os moradores.

Isso porque Patrícia é bem-vista na região. Residente de um bairro popular na zona norte de Porto Alegre, ela convive diariamente com uma maioria de vizinhos negros, como constatou ZH na manhã deste sábado. Um deles, que é amigo dela desde a infância, garante que a jovem não é racista.

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Casa de gremista que cometeu ato racista na Arena é apedrejada Mauricio Tonetto/Agência RBS
Misael Chaves, amigo de infância de Patrícia Moreira da Silva, diz ter certeza que a jovem não é racista


– Nos criamos juntos e nunca sofri um ato de racismo da parte dela, bem como nenhum familiar meu. Hoje existe uma onda com relação ao racismo. Eu, enquanto pessoa negra, não me ofendi pela situação – afirma Misael Chaves.

Em nome da família, que ainda não está se manifestando, o afilhado dos pais de Patrícia, José Luís Assunção, lamenta a raiva pública, manifestada principalmente nas redes sociais, e espera que ela seja perdoada:

– Foi uma cena lamentável. Ela é educada com as pessoas e nunca teve problemas aqui, acho que foi empolgação. Em nome da família, quero que ela peça perdão e seja perdoada. Vejo os comentários, muita gente fala em bater, apedrejar. Uma atitude não justifica a outra.

– A gente entende que ela errou. Naquele momento de indignação (com a partida), qualquer um podia ir no embalo. O que não podemos é aceitar. Se tiver de ser punida, tem de ser. Eu apenas lamento – opinou o gremista Volnei Silveira, 53 anos, morador do bairro.

Patrícia foi flagrada chamando o goleiro do Santos de macaco

Polícia aguarda para depoimento

O proprietário de um mercado ao lado da casa da jovem relata que a conhece desde que ela era bebê. Márcio Traslatti, 49 anos, que já foi árbitro de futebol, acredita que Patrícia errou e deve se justificar. Porém, ele entende que a gremista foi no embalo do estádio. O ex-juiz presenciou a tijolada na residência e pediu calma:

– Ela entrou no clima de todo mundo e gritou, no embalo. Tenho certeza absoluta que ela não é racista, mas errou, sim.

Com o endereço de Patrícia  em mãos, os investigadores da 4ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre foram até a residência dela, mas não encontraram a jovem. Os policiais ainda farão uma nova investida. Eles esperam que ela se apresente no começo da próxima semana na sede da 4ª DP.

– Ela deve ter se recolhido com familiares e provavelmente vai aparecer com advogado. Ela não está foragida, nada disso. Apenas envolvida numa suspeita de praticar um crime de injúria racial. Não acreditamos que possa fugir. Ela vai aparecer – diz o responsável pela investigação, Lindomar Souza.

De acordo com ele, o Grêmio está colaborando muito para o decorrer da investigação e tem atendido a todas as solicitações da Polícia Civil, que já tem as imagens e busca identificar outros suspeitos.

O ato racista ocorreu durante a partida entre Grêmio e Santos, válida pelas oitavas de final da Copa do Brasil na Arena. O time gaúcho perdeu por 2 a 0. Em determinado momento da partida, Patrícia foi flagrada pelo canal de televisão ESPN gritando a palavra macaco duas vezes para o goleiro santista, Aranha.

Além dela, outros gremistas também foram mostrados imitando gestos e sons de macaco. Até agora, cinco deles foram identificados pelo Grêmio, e dois suspensos do Quadro Social, incluindo Patrícia. A jovem também foi demitida – ela era auxiliar de um centro odontológico da Brigada Militar, em Porto Alegre.

Assista ao vídeo do ato racista:

 
 
 
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