São Sebastião do Caí

Na cheia do Rio Caí, duas famílias e um desejo: voltar para casa

Mais de 12 metros acima do nível normal, rio atinge, ao mesmo tempo, moradores acostumados às suas variações e famílias "estreantes"

18/10/2016 - 18h42min | Atualizada em 18/10/2016 - 19h53min

Para alguns, um drama sem precedentes. Para outros, uma tragédia que se repete de tempos em tempos. Em São Sebastião do Caí, famílias acostumadas a deixar suas casas devido às enchentes se misturavam àquelas que, pela primeira vez, enfrentavam o drama de serem resgatadas por barcos no portão de suas residências.

É que, durante a manhã de segunda-feira, após os temporais do final de semana, o nível do Rio Caí alcançou a assustadora marca de 14m66cm na região — mais de 12m acima do nível normal —, se aproximando pela primeira vez dos 14m85cm de 2011, quando foi registrado o maior índice histórico. Desta vez, 65% da cidade foi atingida pelas águas, afetando inúmeros bairros, mais de 4 mil moradores e obrigando pelo menos 210 pessoas a serem levadas para abrigos da prefeitura.

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As ruas e avenidas da cidade, onde até o dia anterior passavam carros, durante a terça-feira viraram rotas de pequenos barcos transportando famílias, animais e pertences dos moradores. Enquanto alguns, assustados, choravam pelos objetos deixados para trás pela primeira vez, aqueles que vivem nos bairros mais próximos ao rio, acostumados com as enchentes que ocorrem mesmo quando o nível não eleva tanto, estampavam no rosto a certeza de que logo retornariam às suas casas.

Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Acordada com água embaixo da cama

O sol nem tinha nascido quando a pastora luterana Cristiane Petri, 55 anos, foi despertada pelos gritos da vizinha, que alertava sobre a enxurrada de água que se aproximava.

— Já está aqui, está invadindo as ruas e casas da região — informava.

Moradora da cidade há menos de três anos, Cristiane chegou a achar, em um primeiro momento, que fosse exagero:

— Desde que nos mudamos para cá, nunca tinha acontecido nada disso. Uma única vez a água chegou na rua, mas não entrou em nenhuma casa. Moramos no bairro Centro, mais longe do rio, e aqui a água não costuma chegar — justificou.

Somente quando colocou os pés no chão, ainda com a luz apagada, é que sentiu o drama que iria enfrentar. Com água até as canelas, a cama e os móveis já parcialmente submersos, acordou imediatamente o marido, o também pastor luterano Hervig Büller, 58 anos, para buscar ajuda.

— Foi um susto grande, mas a verdade é que a gente vai se apavorando um pouco mais a cada minuto, conforme a água vai subindo. A gente sente que não tem mais controle sobre o que está acontecendo, que está completamente vulnerável — disse, por volta das 10h, quando a água, dentro da casa, já chegava à altura da cintura.

Com cadeiras penduradas sobre a cerca de casa, documentos molhados, livros estragados e o carro boiando, o casal de pastores encontrou como única alternativa pedir socorro para amigos:

— Já moramos em diversas cidades por causa da igreja, várias do Rio Grande do Sul e também de Santa Catarina. Nunca imaginamos que estaríamos em uma situação como essa. Ainda bem que conhecemos muita gente por aqui — disse Hervig.

E foi somente com a ajuda de um conhecido, o restaurador de móveis Normelio Brill, 64 anos, que o casal voltou a ter esperança de sair ileso da enchente. Pouco depois de receber a ligação dos pastores, Normelio pegou um pequeno barco que estava no pátio de sua casa, solicitou apoio de outros dois moradores, e embarcou em direção à residência dos amigos.

— Chega uma hora que tu começas a pensar somente nas questões básicas de sobrevivência, como comida, roupas quentes. A água é implacável, é assustadora — desabafou, emocionada, a pastora, minutos antes de deixar a casa na embarcação do amigo.

Sem olhar para trás, Cristiane deixou a residência carregando apenas a bolsa, o celular, e o desejo de nunca mais passar por tamanho sufoco.

Foto: Jaqueline Sordi / Agência RBS

Apenas uma sacola com roupas para as crianças

A calma era tanta que Jessica Silva, 26 anos, chegava até a estampar um sorriso no rosto ao sair do barco e pisar em solo firme com os quatro filhos. No final da manhã desta terça-feira, após ser resgatada pela embarcação do vizinho, a jovem mãe calmamente se dirigia com as crianças — de nove, sete, seis e três anos — para o abrigo da cidade, localizado no Parque Centenário. Acostumada a deixar a casa devido às enchentes, a moradora do bairro Navegantes, um dos mais próximos ao Rio Caí — e que constantemente é atingido pelas cheias —, não se dizia preocupada em ter deixado a casa, já alagada, e o marido para trás.

— É que isso acontece constantemente com a gente. Moro há 12 anos neste bairro, já tenho as coisas organizadas em casa, e nem sei mais dizer quantas vezes tive que sair por causa da elevação do nível do rio. Meu marido ficou no barco com nosso vizinho para ajudar a resgatar outras pessoas — relatou. 

Carregando uma pequena sacola com roupas para as crianças, Jessica deixou o barco determinada a encontrar a mãe, cuja casa também foi atingida pela água, no abrigo da prefeitura. Apesar da chuva que insistia em cair, da mobilização de bombeiros e ambulâncias ao redor, os filhos não pareciam surpresos:

— Acho que passamos por isso umas 50 vezes já. Só fico com medo quando andamos no barco, mas nem me assusto mais com tudo isso — disse, em tom de brincadeira, uma das filhas, Emilly, de 9 anos.

A pouca roupa que Jessica levava consigo refletia a esperança da família, que era a de retornar para casa já no dia seguinte:

— Tenho esperança que nossa casa esteja bem, que as coisas não tenham sido muito atingidas. Temos de ter esperança, sempre, pois não há mais o que fazer — concluiu, antes de sair caminhando com os filhos pelas ruas, desviando das centenas de poças d'água que encontravam no caminho até o parque.


 
 
 
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