Obituário

Militante, guerrilheiro e deputado: o legado de Carlos Araújo para a democracia

Ex-deputado e ex-marido de Dilma, com quem mantinha forte amizade, Araújo participou da guerrilha contra a ditadura e valorizava a vida política 

Por: Zero Hora
12/08/2017 - 09h14min | Atualizada em 12/08/2017 - 13h08min
Militante, guerrilheiro e deputado: o legado de Carlos Araújo para a democracia Lívia Stumpf / Agência RBS/Agência RBS
Foto: Lívia Stumpf / Agência RBS / Agência RBS  

Na vida civil e política, ele era Carlos Franklin Paixão de Araújo. Na clandestinidade, foi conhecido pelo codinome Max. Falecido na madrugada deste sábado, militante comunista, guerrilheiro, ex-deputado estadual pelo PDT e ex-marido da ex-presidente Dilma Rousseff, com quem mantinha grande proximidade, Carlos Araújo deixa o legado de uma história de combate à ditadura e fé na democracia. Há anos ele lutava contra um enfisema pulmonar, cujo agravamento e complicações decorrentes foram a causa da morte.

Aos 79 anos, Araújo deixou três filhos, Leandro, Paula e Rodrigo, e os netos Gabriel e Guilherme. 

O velório será na Assembleia Legislativa entre 15h e 21h. Dilma, que estava no Rio neste sábado, está vindo a Porto Alegre para a despedida. A cerimônia de cremação ocorrerá após o velório, com presença apenas de familiares.

Representante de uma geração que atuou na redemocratização do Brasil
Gaúcho de São Francisco de Paula, onde passou a infância, o ex-deputado nasceu em 18 de fevereiro de 1938. A ligação com a esquerda era de berço. Seu pai era Afrânio Araújo, advogado e um dos únicos comunistas da pequena cidade em que viviam. O nome Carlos, dado ao filho, era uma homenagem ao pensador Karl Marx e a Luiz Carlos Prestes, chefe do Partido Comunista no Brasil.

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Foi admitido, ainda jovem, como militante da Juventude Comunista e preso pela primeira vez aos 15 anos, em Pelotas, em um congresso de fundação de uma entidade de estudantes secundaristas.

Em 1957, com apenas 18 anos, participou do Festival Internacional da Juventude, em Moscou, capital da então União Soviética, como membro da delegação brasileira. No Leste Europeu, tomou conhecimento do relatório secreto em que Nikita Kruschev denunciava os crimes cometidos por Joseph Stalin. Na volta ao Brasil, como a direção local do Partido Comunista se negava a reconhecer o documento, decidiu deixar a agremiação com outros militantes.

Seguindo a saga política, conheceu em Recife, no início dos anos 1960, o líder camponês Francisco Julião, de quem se tornou colaborador. Em 1961, retornou a Porto Alegre durante a Campanha da Legalidade, quando se aproximou de Leonel Brizola. Com o golpe de 64, a relação entre eles foi interrompida. Araújo chegou a ser preso e Brizola rumou ao exílio.

Com o recrudescimento do regime militar, partiu para a luta armada. Em 1969, ele era um dos integrantes de um grupo conhecido como "O.", baseado em Porto Alegre. Nessa época, ele partiu ao Rio de Janeiro para encontros com outros guerrilheiros. Em reuniões, conheceu Dilma, à época identificada pelo codinome Vanda. No segundo encontro, Dilma já havia se separado do marido Cláudio Galeno, também militante guerrilheiro contra o regime, para ficar com Araújo. Do casamente entre Araújo e Dilma, nasceu Paula.

Tortura e tentativa frustrada de suicídio

No Rio, no final dos anos 1960, começaram as aproximações com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de Carlos Lamarca. Não tardaram a surgir divergências. O grupo de Lamarca era mais militarista, defensor do foco nas ações armadas e disseminação de pontos de guerrilha. Já Araújo era mais vinculado à política, com trabalho de doutrina em centros urbanos.

Foi nesse período que Araújo e seus colaboradores promoveram uma das mais famosas ações de guerrilha: o roubo ao cofre do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros.

A ação causou ainda mais tensão na guerrilha e, na reunião seguinte com a VPR de Lamarca, explodiu um confronto que, nas palavras do próprio Araújo, foi finalizado com tiros e juras de morte.

Depois da ruptura com Lamarca, Araújo se instalou em São Paulo, onde acabou preso em julho de 1970. Logo começou a ser torturado. Ele convenceu seus captores a levarem-no a um suposto ponto de encontro em movimentada rua da capital paulista. A promessa era de que mais guerrilheiros poderiam ser presos lá. Na verdade, foi um pretexto criado por Araújo, que se atirou na frente de uma Kombi, tentando o suicídio. Não deu certo. Ele sobreviveu.

Em agosto de 1973, foi transferido para a prisão em Porto Alegre, após longos períodos de tortura em São Paulo e Rio de Janeiro.

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Advogado trabalhista, ingressou no PDT de Brizola no período da redemocratização. Entre as décadas de 1980 e 1990, foi deputado estadual por três mandatos. Atuou com destaque na Assembleia Constituinte Estadual, em 1989. Por duas vezes, concorreu à prefeitura de Porto Alegre: em 1988 e 1992, mas os vencedores foram Olívio Dutra e Tarso Genro, ambos do PT.

Mais tarde, em 2000, desentendeu-se com Brizola e deixou o PDT. Em agosto de 2012, anunciou que retornaria ao partido para fazer oposição ao presidente nacional da sigla, Carlos Lupi, que herdou o comando partidário desde a morte de Brizola, em 2004. No regresso, Araújo não participou de campanhas, impossibilitado pela saúde frágil. Sua principal atuação foi como conselheiro dos netos de Leonel Brizola, Juliana e Carlos (Brizola Neto), ambos envolvidos com a política do PDT.

 
 
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