
Depois de escalar o Morro do Caqueiro com Henrique, Cadu vai mostrar o bairro Rui Ramos à reportagem de ZH. Começa pelo córrego da ponte de madeira, onde era possível pescar jundiás antes que fosse atulhado por garrafas pet e sacos de plástico.
Mas não é agradável caminhar no lugar, marcado por um crime. Durante uma partida de futebol, ao buscar a bola chutada para as margens do riacho por um pé torto, um dos jogadores deparou com o corpo de uma mulher assassinada, escondido no macegal. Já se decompunha, a coitada.
- Foi um susto, todos saíram correndo - lembra Cadu.
Indo adiante, ele chega ao campinho das peladas, maltratado pelo inverno. Verifica as goleiras que ajudou a montar, feitas com galhos de eucalipto, a trave amarrada aos postes por arames. Estão firmes, apesar dos cavalos que pastam ao redor - seguidamente um deles se esfrega no gol, para se coçar na madeira, e estraga a brincadeira.
Outros meninos aparecem no campo. Pablo Mateus Ortiz, 10 anos, neto de uruguaios, e Kelvin Caíque da Silva, seis anos, vêm recolher a égua de nome Tilinguia. Um manto de estopa cobre o bicho, nem tanto como agasalho, é mais para evitar que os pelos fiquem eriçados. Pablo já é um gauchinho, examina as patas do animal sem receio de sofrer um coice.
A caminhada vai adiante. Cadu é submetido a um teste de visão informal.
- Está vendo aquela casa ali adiante? Qual é a cor dela? - pergunta alguém.
- É azul - responde certeiro, apontando para a residência a meio quilômetro de distância.
- E aquele ganso ali parado? (30 metros de distância) - acrescenta outro caminhante.
- É branco. Está com uma pata levantada, descansando - descreve o garoto.
As recordações afloram. Ao se aproximar de moitas e gravatás, Cadu diz que caçava preás de estilingue com outros meninos antes de perder a visão. Cães de orelhas salientes, rabo longo e dentes rilhados assustavam os pobres roedores, que eram atingidos por bodocaços ao deixarem o bunker vegetal.
O bairro expõe a posição econômica e os hábitos dos moradores. Um deles quer vender um fusca, ano 1981, estacionado no pátio. O carro parece abandonado, a lataria, apodrecida, os pneus, semimurchos e carecas. Na quadra seguinte, um galpão abriga uma seita religiosa, promete o conforto da fé contra os reveses da vida.
Numa rua de chão batido, Cadu encontra o vizinho Ricardo Prado Dias, 29 anos, que está rachando lenha num cepo com o pequeno machado. Vende as achas na carreta tracionada a cavalo, para famílias, donos de restaurantes e pousadas. O milheiro custa
R$ 180, a bolsa (saca de 60 quilos) sai por R$ 9.
- O Cadu é bueníssimo - adianta-se Ricardo, no carregado linguajar fronteiriço.
Os dois conversam, fazia algum tempo que não se cruzavam.
- Tava para onde, Cadu? Melhoraste? _ quer saber o lenhador.
- Tava em casa...
- Não podias sair, por causa do clarão do dia? Não te deram uns óculos? _ interessa-se Ricardo.
Cadu, para variar, quase não fala. Parece mais concentrado nos galos de rinha que ciscam no pátio de Ricardo. É a raça preferida no bairro, porque não teme animais predadores que saem dos matos para atacar frágeis galinheiros à noite, suporta mais a geada e os piolhos, e as fêmeas põem mais ovos que as concorrentes crioulas. A desvantagem está no prato: são aves musculosas, de carnes rijas, as quais só amolecem no bafo da panela de pressão.
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