Porto Alegre

Como a polícia frustrou a maior fuga da história dos presídios do RS

Após três meses de investigação, Polícia Civil chegou ao túnel que libertaria ao menos 200 apenados do Presídio Central de Porto Alegre

22/02/2017 - 21h27min | Atualizada em 22/02/2017 - 21h53min

— É a polícia, sai do túnel.

— Calma. É comprido (o túnel, o que justificaria certa demora para percorrê-lo) e tem mais gente lá atrás.

— Que gente?! (Poderiam já ser presidiários em fuga)

— Não, não. É gente só daqui.

Foi assim, na manhã desta quarta-feira, o tenso diálogo entre delegados do Departamento Estadual do Narcotráfico (Denarc) e criminosos que construíam um túnel para facilitar a fuga de, pelo menos, 200 detentos do Presídio Central da Capital. Naquele momento, além de frustrar o que poderia ser o maior episódio de fuga do sistema penitenciário do Estado, a Polícia Civil dava fim a uma angústia que assombrou autoridades nos últimos três meses: a de que uma escapada em massa estava prestes a ocorrer sem que pudesse ser impedida.

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A polícia tinha a informação, mas não sabia quando nem onde poderia ocorrer. Apenas cinco pessoas conheciam a ameaça: o secretário da Segurança Pública, Cezar Schirmer, e quatro delegados — o chefe de polícia, Emerson Wendt, o diretor do Denarc, Odival Soares, o diretor de investigações do Denarc, Mário Souza e o titular da 3ª Delegacia de Investigações do Narcotráfico e que conduziu a apuração, Rafael Pereira.

— Foram meses difíceis. Não dormíamos, sempre pensando que ia acontecer e não íamos impedir. Mesmo de férias, voltávamos para trabalhar. Só tivemos certeza quando entramos na casa e achamos o buraco — desabafou Mário Souza.

Responsável por juntar as peças do quebra-cabeças e minar o plano, o delegado Pereira também perdeu noites de sono. E uma delas foi a de terça para esta quarta-feira. Ele ficou até o começo da madrugada no plantão do Judiciário para conseguir os mandados de busca e apreensão. Tinha de convencer o magistrado de que estava certo.

— Eu disse que sabia que era verdade, mas sem ter, naquele momento, elementos para provar 100% de que o local era ali.

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O resto da madrugada foi de preparação para aquela que os delegados definem ser a missão mais complexa e perigosa que enfrentaram. Na casa simples situada ao lado do Central estavam oito pessoas — sete homens e uma mulher. Quatro homens trabalhavam no túnel quando o local foi invadido por 30 policiais.

Nenhuma arma achada, mas um arsenal de materiais de escavação, sistema de luz, bombeamento de água e refrigeração impressionou policiais. E acabava ali o plano que vinha sendo tramado e foi financiado pela facção criminosa Os Manos. A polícia acredita que o grupo investiu cerca de R$ 1 milhão para comprar a casa ao lado do presídio, pagar os pedreiros e bancar todos equipamentos usados, além da estrutura de carros e de alimentação. O grupo pretendia recuperar parte do investimento vendendo "vagas" para fuga.

Havia ordem hierárquica para a escapada: sairiam primeiro os lideres da facção, depois integrantes próximos da cúpula e, por fim, ofereceriam espaço para outros detentos não-inimigos. A suspeita é de que o passe à liberdade seria de R$ 5 mil.

Dias de monitoramento até chegar a casa da escavação

Mas, se não sabia onde e como a fuga ocorreria, como a polícia chegou na casa ao lado do presídio? Não foi fácil. A primeira investida foi na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). Por 15 dias, a polícia monitorou os arredores da prisão em busca de pistas de uma tentativa de fuga, que podia ocorrer, quem sabe, até pelo ar. Ainda investiu em outras cadeias de Charqueadas. Nada. Depois, as informações surgidas no meio do tráfico foram levando à identificação da facção financiadora do plano.

— Verificamos onde estavam os principais líderes da facção, que têm o dinheiro, e chegamos ao Central. Faltava saber como seria — explicou o delegado Pereira.

Dias de monitoramento revelaram a movimentação estranha naquela casa. Mas faltava ter certeza. Havia uma obra, que podia ser verdadeira. Material era descarregado. Placas de veículos de fora de Porto Alegre chamaram a atenção e a quantidade de pedreiros para uma casa tão modesta também. Em uma semana de chuva, o trabalho parou. Os pedreiros sumiram. A polícia pensou em invadir. Desistiu. Um pouco de certeza começou a se formar com o ritmo que a obra ganhou nos últimos dias: surgiram mais trabalhadores e a casa recebeu geladeira e fogão (para a polícia, um indicativo de que o pessoal ficaria mais tempo). Também esteve pelo local um importante integrante da facção, o que fez a polícia acreditar que estava no caminho certo e que a fuga poderia ocorrer no Carnaval.

— A pressão era muita. Podíamos ter uma ação eficiente ou gerar uma catástrofe, pois essa fuga seria uma tragédia nas ruas — recorda o delegado Souza.

Na noite de terça-feira foi batido o martelo de que a polícia agiria. No amanhecer desta quarta-feira, o Denarc deflagrou a Operação Santo (apesar de ordeiros e respeitadores até de horário de silêncio para trabalhar, de santo os pedreiros não tinham nada), liquidando as chances de escapada de dezenas de criminosos. A investigação ainda terá desdobramentos.

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