Questão urbana

Esta rua poderia ser a mais bonita da cidade. Saiba por que não é

Moradores da Rua Paraíba, no bairro Floresta, convivem com o impacto de centros de triagem de lixo. Um deles, irregular

01/03/2017 - 05h00min | Atualizada em 03/03/2017 - 11h09min
Esta rua poderia ser a mais bonita da cidade. Saiba por que não é Lara Ely/Agência RBS
Falta de cuidado com o lixo atrai animais e desagrada vizinhos das unidades de lixo Foto: Lara Ely / Agência RBS  

O colorido do casario histórico e o túnel verde faziam da Rua Paraíba forte concorrente à mais bonita da cidade. Agora, são coadjuvantes em meio a outros problemas: lixo nas calçadas, insetos, cheio ruim e criminalidade imperam no antigo símbolo do bairro Floresta.

Moradores convivem desde a década passada com a prostituição e o uso de drogas nas ruas. O problema mais recente é a sujeira nas ruas e a infestação de ratos, vindas de unidades de triagem de lixo – uma delas, irregular.

Dono de uma distribuidora de livros, Sílvio Kaercher informa que os moradores passaram a ter gatos para combater as visitas indesejáveis. No local há mais de uma década, já está acostumado a ver roedores sobre os fios de luz, pelos porões da casa ou nas janelas. Em frente a casa de Kaercher mora o protético aposentado José Carlos Tamujo, filho de um ferroviário já falecido e conhecido entre a vizinhança como o morador mais antigo da rua. Tendo vivido os tempos áureos da Paraíba, ele sente falta de poder andar pela rua com segurança, ou tomar um chimarrão de porta aberta, porque a calçada agora está repleta de profissionais do sexo e do lixo. "Nada contra", diz, "apenas um desconforto em relação ao que a rua era e ao que se tornou":

— Respeito quem precisa trabalhar, estão ganhando seu próprio dinheiro. Mas o ruim é que deixam a rua muito movimentada, e deixam resquícios de sujeira — afirma.

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Quando Tamujo era criança, a rua repleta de casinhas coloridas — que mais tarde foi tombada pelo patrimônio histórico — era considerada a mais bonita da cidade. Ali, na antiga Vila dos Ferroviários, Tamujo viu as árvores crescerem, vizinhos de mais idade partirem e o bairro mudar.

Foto: Lara Ely / Agência RBS

No número 177, duas entradas dão acesso a centros de reciclagem. Um deles é a Cooperativa Mãos Unidas Santa Teresinha, cadastrada na prefeitura, e a outra pertence à Associação de Reciclagem Ecológica da Vila dos Papeleiros (Arevipa), entidade não formalizada sobre a qual cai a maior parte das reclamações.

Na Santa Terezinha, Eloá Terezinha da Silva, ex-carrinheira de Uruguaiana, organiza a rotina de 37 cooperados em um espaço amplo, ventilado e sem vestígios de cheiro ruim. Em sua maioria mulheres, os trabalhadores seguem normas de convívio, como não fumar, não beber e cumprir horário, diz ela. Há espaço definido para realizar a separação do lixo reciclável do rejeito - as pessoas ficam posicionadas de acordo com a experiência na atividade. À exceção de Eloá, que trabalha em dois turnos, eles tiram por mês cerca de R$ 340 separando material trazido por caminhões da coleta seletiva da prefeitura, que é vendido depois pela cooperativa. Quem trabalha lá não é do bairro, mas sabe que deve zelar por ele, garante a tesoureira.

— Digo a eles: nada de lixo pela rua! E devem todos se responsabilizar pela limpeza interna do local. Os trabalhadores vêm de outras áreas da cidade, como Humaitá, Restinga. O pessoal da vila (dos Papeleiros) não se adaptou às regras — afirma a tesoureira, que, após passar por cursos de treinamento na prefeitura, incorporou novas práticas para melhorar a produtividade, como uso de EPIs, prensas e, sobretudo, o modo de lidar com as pessoas.

Na Arevipa, o trabalho tem menos regras. Em vez de separar material dos caminhões, os próprios recicladores trazem, em carrinhos, o que coletam pela cidade. A área cedida pela prefeitura serve para cerca de 100 papeleiros separarem lixo e venderem posteriormente para atravessadores. Com isto, explica o tesoureiro da associação, Mauro dos Santos da Silva, o Viana, conseguem tirar um valor até 30% superior ao da cooperativa.

Sem ter participado de programas de qualificação da prefeitura, a Arevipa tem condições de higiene piores. Na cooperativa Santa Terezinha, a área é organizada: o trabalho é realizado sobre mesas e há um depósito específico para o rejeito. Na Arevipa, tudo fica misturado: materiais, pessoas, cheiros e animais. Sobre a presença dos ratos, as duas unidades usam veneno para combatê-los. Sem sucesso.

— Eles vêm de noite, parecem uns soldados. Até durmo no galpão para proteger o patrimônio — diz Eloá.

— A gente faz o controle, coloca veneno, mas eles vêm igual — reforça Viana.

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Prefeitura diz que fará reunião para definir ações

Coordenadora executiva do Todos Somos Porto Alegre, programa da Secretaria Municipal de Relações Institucionais, Denise Costa conta que a partir dos cursos realizados na Santa Terezinha, foi possível elevar a produtividade de 1,36 toneladas/mês para 2,45 toneladas/mês. O trabalho segue orientação da Política Nacional de Resíduos Sólidos:

— Buscamos que esses grupos se tornem mais organizados como cooperativas e possam usufruir de direitos e deveres — diz.

Questiona sobre a queixa dos moradores, Denise argumenta que a diferença entre as duas unidades é resultado do envolvimento dos trabalhadores na proposta de qualificação oferecida pelo Todos Somos Porto Alegre:

— Solicitamos várias vezes que a Arevipa aderisse ao programa, mas não podemos obrigar. Já houve pedido do Ministério Público do Meio Ambiente para intervirmos no local, mas ali é uma questão complicada. Tentamos várias ações e eles resistem — afirma.

Segundo ela, a prefeitura não descarta uma medida extrema, como retomar o imóvel, mas acredita que investir em cursos de capacitação técnica e formalização seja o caminho. No próximo dia 2, uma reunião com o prefeito Nelson Marchezan irá definir os rumos da política em relação aos papeleiros e como a nova prefeitura irá lidar com a questão.

 
 
 
 
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