A (in)segurança que dá lucros

Com poder público inerte, mercado da segurança privada deve seguir em expansão

Setor que multiplicou em mais de três vezes o faturamento na última década lucra com falta de perspectiva de resposta do poder público

15/10/2016 - 02h03min | Atualizada em 15/10/2016 - 02h03min
Com poder público inerte, mercado da segurança privada deve seguir em expansão Bruno Alencastro/Agencia RBS
Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS  

O ritmo crescimento do setor de segurança privada vai seguir acelerado nos próximos anos, projeta quem trabalha na área. A razão é a mesma que levou o segmento a multiplicar em mais de três vezes o faturamento em uma década, com crescimento médio superior a 12% ao ano: a falta de perspectiva de o pode público dar resposta adequada ao aumento da criminalidade.

Com a experiência de quem esteve à frente do aparato estatal de policiamento ostensivo, o consultor da empresa gaúcha de segurança privada Epavi, João Carlos Trindade, comandante-geral da Brigada Militar entre 2008 e 2010, é taxativo ao afirmar que, por enquanto, não há nenhum sinal de que o segmento pare de ganhar importância na tarefa que originalmente seria pública.

— Isso é diretamente proporcional ao aumento da criminalidade. E os Estados estão exauridos, com a capacidade de gastos com segurança no limite — opina Trindade.

Clique na imagem abaixo para acessar as outras matérias do especial

Para o assessor jurídico do Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado do Rio Grande do Sul (Sindesp-RS), Cesar Levorse, é possível comparar o quadro ao fenômeno que ocorreu com a saúde e a educação em décadas anteriores. Com a queda da qualidade do serviço público, a classe média recorreu aos planos de saúde e ao ensino privado.

— É mais recente, mas semelhante — atesta Levorse.

A avaliação sobre as perspectivas para o setor são semelhantes. Para o advogado, não há indícios de reversão no quadro que levou à falência do Estado na missão de garantir segurança. E se empresas e cidadãos não se sentem confortáveis com o que é oferecido pelas forças oficiais, isso gera lacuna que é preenchida pela iniciativa privada, diz Levorse.

— Não vemos um fim na insegurança. Isso gera demanda — resume o advogado.

A continuidade do problema aliado ao custo pode inclusive gerar alterações legais que tornem o serviço privado mais acessível para cidadãos e pequenos condomínios, entende Levorse. Além do avanço do monitoramento eletrônico, deve chegar o momento em que o poder público terá de regulamentar a função dos guardas de rua que costumam atender vizinhanças, criando a figura de autônomos no setor, prevê o advogado.

A segurança privada vai continuar a crescer, mas de forma diferente, entende Trindade, que não atribui o movimento ao encolhimento do poder público, mas a outras questões como legislação penal, fracasso na ressocialização de presos e desemprego. Em alguns casos, a presença física vai ser substituída pelo monitoramento eletrônico, com câmeras e sensores. Apenas a Epavi conta hoje com contingente de 7 mil funcionários e controla de forma remota três mil pontos no Estado. A despeito da crise na economia, Trindade arrisca que o faturamento do setor no país este ano cresce ao menos 10%.

Leia mais:
Segurança privada fatura bilhões e emprega mais que a polícia
Escola investe em segurança, mas custo pesa no bolso dos pais
Sem segurança de shoppings, comércio de rua amarga prejuízo com o crime
Gastos com segurança têm impacto na competitividade da indústria
Risco de roubos responde por quase metade do custo do seguro de carros
Morte de jovens pela violência tem impacto na economia em longo prazo



 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.